Migrantes desaparecidos: viver entre duas realidades no Afeganistão

25 agosto 2016
Migrantes desaparecidos: viver entre duas realidades no Afeganistão
Fahima e o sobrinho Ahad precisam encontrar desesperadamente o corpo do primo, que morreu quando tentava atravessar da Turquia para a Grécia. CC BY-NC-ND / CICV / Jessica Barry

A irmã, o cunhado, o sobrinho e a sobrinha de Fahima morreram quando o barco que os levava da Turquia a Lesbos, na Grécia, virou. O corpo do seu sobrinho ainda está desaparecido, o que impede Fahima e o restante da sua família de darem um desfecho a esse doloroso capítulo das suas vidas.

Parecia sem sentido perguntar a Fahima aonde se dirigiam os seus parentes desaparecidos quando deixaram o país para ir a Europa no início do ano, porque ela já sabia que eles nunca chegaram. Tudo o que ela queria agora era encontrar os corpos deles e trazê-los de volta para o Afeganistão.

"Quando a sua família está desaparecida é muito difícil", contou, sentada próximo ao seu sobrinho de 12 anos, Ahad. Os primos dele estão entre os mortos, junto com a irmã de Fahima, o cunhado e os dois filhos do casal.

Dois barcos que atravessam da Turquia para a Grécia viraram no dia em que a irmã de Fahima se afogou; um zarpou da província de Balikesir e outro de um ponto próximo a Izmir. Ambos iam em direção à ilha grega de Lesbos, a cerca de dez quilômetros de distância pelo mar Egeu. Mais de 30 pessoas morreram nessas duas tragédias.

Quando o barco virou, perto da costa turca, a irmã de Fahima falava ao telefone com o irmão na Dinamarca. "De repente, ele ouviu pessoas gritando e chorando", conta Fahima. "E, então, o telefone ficou mudo".

O irmão de Fahima viajou imediatamente para a Turquia, determinado a saber o que havia acontecido e para recuperar o corpo da irmã. Quando chegou lá, foi à polícia, mas eles não ajudaram. Buscou nos estabelecimentos de saúde locais e perguntou em todos os lugares até que, finalmente, encontrou o nome da irmã registrado em um hospital. O corpo estava no necrotério. Mais tarde, localizou o cunhado e a filha deles. Mas não puderam encontrar o corpo do sobrinho, nem do primo, nem dos vizinhos que viajam com a sua irmã e o seu cunhado.

"Perder um ou dois parentes é terrível", afirma Fahima, "mas perder toda a família é insuportável."

Knowing that a missing relative has died is painful, but at least it brings a sort of closure.

Saber que um parente desaparecido está morto é doloroso. Mas, pelo menos, é um tipo de desfecho. CC BY-NC-ND / CICV / Jessica Barry

Hoje, a irmã, o cunhado e a sobrinha de Fahima, cujos corpos o irmão trouxe de volta a Cabul, jazem em solo afegão, junto com outros quatro vizinhos. O corpo da outra criança da família, primo de Ahad, ainda está desaparecido, assim como de outros três vizinhos e de outro primo. Fahima teme pelo pior.


"O meu irmão disse que os corpos ficaram na água por quatro horas", conta em voz baixa. "Essas águas têm tubarões?", pergunta, desmoronando momentaneamente.

Se não tem corpo, não tem desfecho.

Fahima foi ao escritório do CICV em Cabul para perguntar se podiam ajudá-la a encontrar o sobrinho. "Vocês têm listas ou fotos dos mortos?", perguntava. "Vocês têm colegas que podem procurar em hospitais e buscar pessoas desaparecidas? Se não tem corpo, não tem desfecho."

Foi uma declaração tão simples, mas não cheia de dor.

"Se não sabem sequer ao certo que uma pessoa morreu, as famílias têm de viver com o que chamam 'perda ambígua'", explica Wilhelm Odde, do CICV, cujo trabalho inclui ajudar a buscar pessoas desaparecidas na Grécia.

"A pessoa vive entre duas realidades: sabe que o seu ente querido provavelmente nunca voltará, mas está o tempo todo esperando o seu retorno."

O CICV apoia os esforços para identificar os corpos das pessoas que morreram tentando entrar ou atravessar a Europa. Trabalhamos com as autoridades, ajudando os médicos forenses a recolher os cadáveres e registrar qualquer coisa que possa ajudar na identificação, como marcas de nascença, tatuagens ou pertences encontrados juntos aos corpos. Esta é a nossa maneira de trabalhar em todas as áreas afetadas por desastres e conflitos nas quais operamos.

À medida que grandes números de refugiados e migrantes atravessam a Europa, com milhares deles morrendo no caminho, a medicina forense representa um papel cada vez mais importante nos esforços do CICV para ajudar as famílias das pessoas desaparecidas.

"A ciência forense e os resultados felizes nem sempre estão juntos", admite o Dr. Costas Couvaris, assessor forense do CICV na Grécia. "Mas quando tem um caso de sucesso, podemos provar que a pessoa que está sendo buscada está de fato morta e podemos identificar exatamente onde está sepultada. Não é um final feliz, mas é um final."

E é tudo que Fahima e Ahad pedem.

 

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