São Paulo - A vida de pessoas afetadas por décadas de conflito armado na República Democrática do Congo é o foco da série de reportagens do jornalista Pedro Borges, vencedor da 7ª edição do Prêmio CICV de Cobertura Humanitária Internacional. As matérias, publicadas pela Alma Preta e pela revista Piauí, mostram como a violência interfere no cotidiano da população civil e expõem diferentes dimensões da crise humanitária no país.
Em dez reportagens, Borges registra como o conflito armado afeta o acesso a alimentos, saúde, moradia e segurança, provoca deslocamentos e aprofunda vulnerabilidades. A série também lança luz sobre outras questões relacionadas à crise humanitária, como as consequências das mudanças climáticas e a exploração de recursos naturais.
A premiação foi realizada nessa quarta-feira (12), no Reserva Cultural, em São Paulo. O evento reuniu jornalistas, profissionais de organizações humanitárias, acadêmicos e estudantes de jornalismo para reconhecer os trabalhos que contribuíram para ampliar a compreensão sobre conflitos armados e suas consequências para a população civil.
Ao receber o prêmio, Borges destacou que o jornalismo, embora não possa solucionar os conflitos armados, pode contribuir para preservar a humanidade das pessoas que vivem em meio à guerra. “É preciso agradecer ao povo congolês, que vive uma situação muito difícil. A gente sabe que nosso trabalho não vai acabar com o conflito, mas espero que o nosso material possa trazer um pouco de humanidade para essa população que passou por um processo tão longo de violência e desumanização”, afirmou.

R. Canato/ CICV
Em um mundo marcado por mais de 130 conflitos armados, dar visibilidade às pessoas para além das estatísticas é um dos desafios da cobertura jornalística. Foi a partir desse olhar que Pedro Borges produziu a série premiada. “Este prêmio é, sem dúvida, o maior reconhecimento que já recebi na minha carreira, estou muito agradecido”, acrescentou.
A República Democrática do Congo (RDC) enfrenta há mais de 30 anos uma crise que ultrapassa os campos de batalha e atravessa o cotidiano de sua população. É um dos conflitos armados mais prolongados e complexos do mundo. Cerca de sete milhões de pessoas foram deslocadas das suas casas – muitas delas mais de uma vez – sendo 2,5 milhões delas somente em Kivu do Norte.
Mais do que reconhecer uma reportagem, o Prêmio CICV de Cobertura Humanitária Internacional busca incentivar um jornalismo que tenha como foco a população afetada pelos conflitos armados e como suas vidas são impactadas em consequência da guerra. Ao reconhecer diferentes formas de contar essas histórias, a iniciativa contribui para ampliar o olhar sobre realidades que, muitas vezes, permanecem distantes do noticiário brasileiro.
O chefe da Delegação Regional do CICV para Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, Nicolas Olivier, participou da cerimônia de premiação. “Um jornalismo que se aproxima dessa forma das populações afetadas fortalece não apenas a compreensão pública dos conflitos armados, mas também a própria dignidade da população afetada. E o olhar do jornalista em uma área de conflito é o que devolve a essas pessoas o rosto e a voz que os números apagam. É o que transforma a estatística de volta em história, em nome, em dor reconhecível”, afirmou. “É esse olhar atento e humano que nos lembra que, por trás de cada conflito, existe sempre uma história individual, e que contá-la é também uma forma de resistência contra o esquecimento e a indiferença”, destacou.
Nesta edição, foram analisados 81 trabalhos de veículos de comunicação televisivos, impressos e digitais, publicados ou exibidos entre 1º de setembro de 2024 e 29 de março de 2026. Como vencedor, Pedro Borges recebe como prêmio uma viagem para um dos contextos em que o CICV desenvolve atividades operacionais.
A cerimônia de premiação teve dois momentos especiais: a celebração dos 77 anos das Convenções de Genebra, comemorada no dia 12 de agosto, e os 25 anos de parceria entre o CICV e a Oboré Projetos Especiais, que já formou mais de 800 jornalistas no âmbito do Projeto Repórter do Futuro. “Criamos o Curso de Jornalismo em Guerra e Violência Armada, voltado a estudantes de jornalismo. Muitos dos profissionais que hoje cobrem temas humanitários e internacionais participaram desse curso no início de suas trajetórias. Ver esse legado se consolidar é motivo de grande satisfação para todos nós”, lembrou Nicolas Olivier.

R. Canato / CICV