Comunicado de imprensa

Brasil: Encontro nacional reúne Defensoria Pública, Poder Judiciário e CICV para fortalecer resposta ao desaparecimento de pessoas no Brasil

4º Encontro Jurídico sobre Desaparecimento
Zé Rosa Filho / DPCE

Fortaleza (CE) - No Brasil, uma pessoa desaparece a cada seis minutos. Apesar da dimensão do problema, o desaparecimento de pessoas ainda recebe pouca atenção e as respostas oferecidas pelo Estado permanecem insuficientes para milhares de famílias que vivem a angústia da busca por um ente querido. Em muitos casos, o desconhecimento dos profissionais responsáveis pelo atendimento acerca das necessidades específicas dos familiares acaba agravando ainda mais o sofrimento.

Com o objetivo de fortalecer a resposta institucional e aprimorar o acesso à justiça, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), o Conselho Nacional das Defensoras e Defensores Públicos Gerais (CONDEGE) e a Defensoria Pública do Estado do Ceará (DPE-CE) realizaram, nos dias 8 e 9 de julho de 2026, em Fortaleza (CE), o IV Encontro sobre os Aspectos Jurídicos do Desaparecimento.

O evento marca um passo concreto na construção de uma resposta institucional mais eficaz: a apresentação de um protocolo unificado de atenção aos familiares que estabelece parâmetros mínimos de acolhimento, orientação jurídica e acompanhamento interdisciplinar para todas as unidades da Defensoria Pública do país.

O protocolo foi desenvolvido ao longo dos últimos meses por um Grupo de Trabalho que reúne defensores públicos dos estados do Ceará, São Paulo, Bahia, Rio de Janeiro e do Distrito Federal, além de psicólogos e da equipe técnica do CICV. O objetivo é garantir que famílias de pessoas desaparecidas recebam um atendimento integral, uniforme e humanizado — independentemente do estado em que vivam.

O Encontro reuniu cerca de 60 participantes, entre Defensores Públicos Gerais de diferentes estados, defensores atuantes nos núcleos de direitos humanos, representantes do Poder Judiciário e representantes dos Ministérios coordenadores da Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas, o Ministério da Justiça e Segurança Pública e o Ministério dos Direitos Humanos, e equipes técnicas das defensorias públicas. A programação inclui mesas expositivas e oficinas práticas dedicadas ao diagnóstico dos desafios para a implementação do protocolo e à elaboração de planos de ação que poderão ser replicados em cada defensoria.

4º Encontro Jurídico sobre Desaparecimento
Zé Rosa Filho / DPCE
Zé Rosa Filho / DPCE

A Coordenadora do Núcleo Especializado de Cidadania e Direitos Humanos da Defensora Pública do Estado de São Paulo, Cecília Nascimento Ferreira, considera a iniciativa inovadora. “O protocolo possibilitará um olhar especializado e atento às necessidades específicas desse grupo, que muitas vezes sofre com a invisibilização dentro das instituições. O debate para a construção do protocolo faz com que o texto a ser aprovado observe as diferenças estruturais na realidade da Defensoria Pública em cada unidade federativa, contando com o olhar dos familiares de pessoas desaparecidas que participarão do evento, de forma a assegurar um atendimento integral e multidisciplinar às pessoas afetadas”, afirmou. 

O chefe de Operações da Delegação Regional do CICV para Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, Guela Sekhniachvili, ressalta que esse é um esforço conjunto para aperfeiçoar a atenção à temática do desaparecimento no âmbito da Defensoria Pública por meio da sensibilização e da construção de diretivas gerais, a serem adaptadas ao contexto local. “A Defensoria Pública ocupa um papel estratégico na resposta ao desaparecimento de pessoas: além de assegurar assistência jurídica e acesso à justiça aos familiares, é uma instituição fundamental para incorporar uma perspectiva humanizada na formulação e implementação de políticas públicas sobre o tema. Sua atuação também representa uma importante porta de entrada para o acesso a outros direitos fundamentais frequentemente impactados pelo desaparecimento, como saúde, educação, assistência social e documentação”, disse. 

O IV Encontro é o resultado de um processo iniciado em 2022, quando o CICV promoveu o I Encontro sobre os Aspectos Jurídicos do Desaparecimento para mapear as lacunas normativas da resposta estatal à problemática no Brasil. Cada edição representou um avanço neste processo: da identificação dos desafios à construção de soluções em parceria com o Poder Judiciário e, agora, com a Defensoria Pública.

A Defensora Pública do Núcleo de Direitos Humanos e Ações Coletivas (NDHAC) da DPEC, Mariana Lobo Botelho de Albuquerque, destacou o papel fundamental do CICV na organização deste evento. “Sem o empenho desta instituição em articular parceiros, viabilizar espaços de diálogo técnico e mobilizar os atores envolvidos no tema, não estaríamos aqui hoje discutindo um assunto tão sensível e urgente. Iniciativas como esta reforçam algo em que acreditamos profundamente: nenhuma instituição, isoladamente, dá conta da complexidade que envolve o desaparecimento de pessoas — e é justamente esse esforço de articulação que nos permite avançar coletivamente”, comentou. 

Para Mariana Lobo Botelho de Albuquerque, o desaparecimento de uma pessoa não afeta apenas quem desapareceu. Atinge, sobretudo, quem fica. Nesse contexto, ela afirmou que o fortalecimento da atuação da Defensoria Pública depende de três frentes complementares. “ Primeiro, o acolhimento humanizado das famílias, que muitas vezes chegam até nós fragilizadas e sem saber a quem recorrer; segundo a assessoria jurídica qualificada, que garante que essas famílias conheçam e exerçam seus direitos ao longo de todo o processo de busca; e por último o auxílio técnico junto às autoridades responsáveis pelas buscas, especialmente na tradução e organização das informações que, muitas vezes, chegam de forma fragmentada e precisam ser transformadas em elementos úteis para a investigação”, destacou.  

Sobre o CICV

No Brasil, o CICV acompanha grupos de familiares de pessoas desaparecidas, a fim de compreender suas necessidades e apoiá-los em seu processo de busca por respostas. A partir deste trabalho, é possível desenvolver metodologias de acompanhamento de familiares de pessoas desaparecidas que sejam adaptadas à realidade brasileira.

Conjugando o conhecimento da realidade local com a experiência global, o CICV também oferece recomendações às autoridades brasileiras e apoio técnico em diferentes áreas.

Mais informações

Delegação Regional do CICV em Brasília

Fabíola Góis – Assessora de Comunicação

fgois@icrc.org | +55 61 98248-7600