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Por uma nova realidade carcerária: modelos seguros, sustentáveis e humanos

Una persona privada de libertad, con mascarilla, pinta una pared con un rodillo dentro de un centro de detención. En el fondo, otras personas participan en la actividad mientras permanecen en un pasillo del establecimiento.

Segundo as Regras Mínimas das Nações Unidas para o Tratamento de Reclusos — Regras de Nelson Mandela —, o objetivo das penas e das medidas privativas de liberdade é, sobretudo, proteger a sociedade contra a criminalidade e diminuir a reincidência. Isso só pode ser alcançado se o período de privação de liberdade for utilizado para assegurar, sempre que possível, a reintegração social das pessoas na sociedade após sua libertação.

Centros penitenciários, portanto, não se reduzem a unidades de custódia; são também espaços de tratamento. Neles, rotinas de vida são planejadas e o dia a dia acontece: é onde as pessoas privadas de liberdade se alimentam, recebem cuidados médicos, praticam esporte, estudam, são visitadas por seus familiares e interagem com a equipe penitenciária, que, por sua vez, é responsável pelos procedimentos de segurança, tratamento, administração e manutenção.

Tratar os centros penitenciários unicamente como locais de confinamento, deixando essa rotina e tratamento em segundo plano, não gera, por si só, espaços seguros e sustentáveis. Um sistema penitenciário útil à sociedade não é aquele que constrói mais prisões ou celas, mas sim o que projeta uma infraestrutura penitenciária que atenda ao propósito da privação de liberdade. Também é aquele onde existem as condições necessárias para apoiar o tratamento e a reintegração social, garantindo a diminuição da reincidência.

A América Latina e os desafios compartilhados

Na América Latina, muitos sistemas penitenciários apresentam os mesmos desafios. Sem uma infraestrutura penitenciária que opere como o componente central do funcionamento dos centros — e não apenas como uma resposta à necessidade de mais camas —, esses desafios não serão resolvidos. 

Desafios como a superpopulação e a superlotação não são solucionados simplesmente com a ampliação das instalações penitenciárias. Além disso, a maioria dos centros penitenciários na região são desprovidos de elementos básicos: má ventilação e iluminação, problemas de temperatura ou umidade, e instalações sanitárias inadequadas.

Essas falhas não se limitam aos aspectos técnicos: incidem na saúde física e mental das pessoas privadas de liberdade — aumentando os custos com assistência médica —, assim como na convivência e na segurança do centro. Também repercutem nas condições de trabalho da equipe penitenciária, que realiza longas jornadas de trabalho nesses mesmos espaços.

Outro problema importante é que os sistemas penitenciários da região importaram modelos arquitetônicos concebidos para outros contextos, muitas vezes sem responder às necessidades operacionais, sociais e ambientais locais. Um projeto que funcione de acordo com certas condições climáticas, orçamentárias e institucionais pode se mostrar inadequado em outra realidade, resultando em unidades difíceis de operar e manter ou com dificuldade de adaptar-se às dinâmicas cotidianas do centro penitenciário.

A região também partilha o desafio de não ter normas e padrões nacionais em infraestrutura penitenciária, o que torna difícil fazer o planejamento e o projeto de centros adequados e gera despesas financeiras relevantes no longo prazo. 

A construção de um centro penitenciário pressupõe um investimento público bastante elevado, que pode chegar a dezenas ou centenas de milhões de dólares conforme seu tamanho e nível de segurança (quanto maiores as exigências de segurança física, mais onerosa será a infraestrutura devido à demanda por sistemas construtivos, tecnológicos e de controle mais complexos).

Embora os projetos costumem considerar períodos de amortização de 20 a 25 anos, na prática, os estabelecimentos penitenciários permanecem em funcionamento por um tempo maior, inclusive por mais de um século em alguns casos. Por isso, as decisões relativas ao projeto e à construção têm efeitos de longo prazo sobre os custos operacionais e de manutenção, e sobre a gestão e as condições de privação de liberdade.

Sem um modelo de gestão penitenciária claro, os projetos ou reformas dos centros podem se tornar um grande obstáculo para a operação do local: a lógica dos movimentos internos perde sua funcionalidade, os setores não respondem adequadamente às atividades previstas e a infraestrutura acaba exigindo que a gestão se adapte a um ambiente construído que não foi pensado para a operação real e cotidiana. Os centros devem ser projetados e operados a partir da relação entre infraestrutura, procedimentos e recursos humanos disponíveis.

Uma resposta técnica regional que resgata a humanidade

Diante destes desafios, representantes de 11 sistemas penitenciários das Américas (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, Honduras, México, Panamá, Peru e República Dominicana), com o apoio do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), trocaram experiências para desenvolver critérios que contribuam para a promoção de uma infraestrutura funcional, digna e alinhada às Regras de Nelson Mandela.

Os Critérios para Padrões Técnicos em Infraestrutura Penitenciária, reunidos no Guia CETIP, buscam ser uma ferramenta adaptável às realidades operacionais, institucionais e culturais de cada país. Foram desenvolvidos para elaborar ou atualizar os padrões nacionais, reformar ou adequar os centros penitenciários já existentes e identificar as prioridades de melhorias e investimento público.

A guia aposta em uma nova realidade penitenciária que seja possível e sustentável: uma realidade que responda à lógica de projetar melhor antes de construir mais, tendo como meta prisões mais humanas, mais seguras e onde a dignidade não possa ser suspensa; uma realidade que supere a visão limitada de que a finalidade principal dos centros é o confinamento e a contenção e que, em vez disso, invista na reintegração social para cumprir o objetivo de proteger a sociedade da criminalidade e reduzir a reincidência, sendo, portanto, útil para a sociedade.