Bósnia-Herzegovina: uma corrida contra o tempo

12 novembro 2010

Na Bósnia-Herzegovina, o paradeiro de mais de 10 mil pessoas que desapareceram durante o conflito no início da década de 90 – o que representa sete de dez pessoas desaparecidas nos Bálcãs Ocidentais – ainda é desconhecido. Esclarecer o destino dessas pessoas é a tarefa do Instituto de Pessoas Desaparecidas (MPI) em Sarajevo. Os diretores do instituto se reuniram com o presidente do CICV, Jakob Kellenberger, em Genebra, no dia 12 de novembro de 2010. Barbara Hintermann, chefe de operações do CICV para o América do Norte e Europa Ocidental, Central e Sudeste fala sobre as questões em jogo.

Quais são as questões mais prementes?

As famílias das pessoas desaparecidas estão em uma corrida contra o tempo. Elas estão envelhecendo e precisam desesperadamente saber, antes de morrerem, o que aconteceu com seus entes queridos; e querem transmitir esse conhecimento para as próximas gerações. Para uma reconciliação, isso é crucial.

Acabo de voltar de uma visita a Belgrado, Zagreb, Sarajevo e Pristina; e eu mesma ouvi a expressão desses sentimentos. Um senhor idoso, que finalmente recebeu os restos mortais de seu filho, disse: " Saber o que aconteceu com meu filho é como trazê-lo de volta a casa " . Isso, por si só, já indica que saber o que aconteceu é crucial para essas pessoas. Elas precisam po der se enlutar com dignidade. Somente então poderão encontrar paz de espírito. As autoridades devem agir: esta é uma necessidade urgente. Sinto isso todas as vezes que visito a região e cada vez com mais intensidade do que na anterior.

A tarefa mais premente é acelerar o processo, isto é, encontrar e fornecer informações sobre as covas recém-descobertas e assegurar que as exumações e a identificação dos restos mortais se realizem a tempo. Outra prioridade é manter o apoio psicológico e o acompanhamento das famílias, porque elas continuarão sofrendo enquanto o destino de seus parentes continuar desconhecido.

Como esse processo pode ser acelerado?

As autoridades na Bósnia-Herzegovina precisam fornecer todas as informações que detêm que poderia ajudar a esclarecer o paradeiro das pessoas desaparecidas. Precisam buscar nos arquivos e compartilhar o que encontrarem com o Instituto de Pessoas Desaparecidas. O Direito Internacional Humanitário exige que o façam.

Como o Instituto de Pessoas Desaparecidas contribui?

O MPI foi fundado em 2004, depois de uma decisão de duas " entidades governamentais " : a Federação da Bósnia-Herzegovina e a República da Sérvia. É uma instituição nacional e multiétnica, o que é crucial para a ação imparcial. O MPI é responsável pelo processo de exumação e identificação de restos mortais, além de oferecer apoio psicológico às famílias de pessoas desaparecidas. O instituto deve receber todo o apoio político e financeiro necessário das autoridades. É essencial que recebam todas as informações sobre a localização das covas.

Gostaria de enfatizar uma coisa: a taxa de sucesso na identificação de pessoas desaparecidas nos Bálcãs Ocidentais, incluindo a Bósnia-Herzegovina, é muito maior do q ue em qualquer outra parte do mundo. Desde o início, o MPI tem contribuído para isso. Atualmente, o instituto está montando sua base de dados central e consolidando os dados recolhidos por várias organizações envolvidas no esclarecimento do destino das pessoas desaparecidas. É uma tarefa importante e que levará tempo para ser concluída.

Como o CICV está ajudando?

O CICV presta apoio técnico e material ao instituto. Convidamos três diretores do MPI para participar de discussões com vários especialistas em Genebra. Também organizamos sua visita ao Serviço Internacional de Busca, em Bad-Arolsen. Esperamos que voltem a Sarajevo com novas ideias para seu trabalho. É reconfortante ver como os três diretores fazem seu trabalho: eles têm um objetivo em comum e não se distraem com questões de origem étnica.

O que o presidente do CICV disse aos diretores do instituto?

Nosso presidente lhes assegurou que o apoio do CICV e seu compromisso para com ajudar a esclarecer o paradeiro das pessoas desaparecidas na Bósnia-Herzegovina continuarão. Também reconheceu a contribuição do MPI e os estimulou a dedicar todos os seus esforços ao fortalecimento do funcionamento do instituto, de modo que este preste o apoio adequado e sustentável às famílias.