Srebrenica 20 anos depois: não nos esqueçamos

11 julho 2015
Srebrenica 20 anos depois: não nos esqueçamos
Cemitério de Potocari, Srebrenica, Bósnia e Herzegóvina. Dzidza, em frente ao monumento construído em memória das quase oito mil pessoas mortas em Srebrenica. Entre os mortos, encontram-se p seu marido, os seus dois filhos e os seus dois irmãos. CC BY-NC-ND / CICV / N. Danziger / v-p-ba-e-00076

Por Dominik Stillhart, diretor de Operações

Há alguma coisa silenciosamente atemorizante sobre os cemitérios onde os túmulos são todos iguais. A ausência de diferenças entre os jazigos transmite uma mensagem ao visitante: algo terrível aconteceu aqui.

É isso que se sente no imenso cemitério de Potocari, perto de Srebrenica, onde esta semana se celebra o vigésimo aniversário de um dos mais sombrios episódios da Guerra da Bósnia, quando quase oito mil pessoas foram mortas nos quentes dias de julho, durante o verão de 1995. Naquela ocasião, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) perdeu nove membros da sua própria equipe.

Este ano, como a cada ano, uma cerimônia de enterro coletivo será realizada. Mais de 130 caixões cobertos com um tecido verde como a cor das bandeiras islâmicas serão enterrados: são, até o momento, as últimas vítimas a serem encontradas e identificadas de um conflito que terminou tanto tempo atrás.

A maioria dos pacificadores e soldados da paz, jornalistas e profissionais humanitários foram embora da Bósnia há muito tempo. Outros conflitos ao redor do mundo atraíram a sua atenção.

Mas os corpos continuam sendo encontrados. A sorte de mais de mil pessoas continua sendo desconhecida em Srebrenica.

Em geral, a cada ano, o número de vítimas enterradas na cerimônia de Potocari é menor em relação ao ano anterior. Em 2012, foram 520; em 2013, 409 e em 2014, 175.

Isto é inevitável. É relativamente fácil avançar na descoberta sobre o que aconteceu com os desaparecidos nos primeiros meses e anos após o conflito, quando há muitas testemunhas e as memórias estão frescas. Mas o índice de progresso não pode ser mantido, à medida que as memórias desaparecem e a evidências ficam mais difíceis de encontrar.

Potocari cemetry, Srebrenica

Cemitério de Potocari, Srebrenica, fevereiro de 2008. Dzidza reza ao lado do túmulo de um dos seus irmãos. CC BY-NC-ND / CICV / N. Danziger / v-p-ba-e-00075

A verdade é que os desaparecidos em conflitos ocorridos muito tempo atrás não podem competir com as aflitivas emergências de hoje: na Síria, no Iraque, no Iêmen. Então, por que é importante que a busca pelos desaparecidos de Srebrenica, da Guerra da Bósnia e dos outros conflitos nos Bálcãs continue?

Vivemos em um tempo de notícias instantâneas, de impactos instantâneos, de resultados instantâneos. Estar assiduamente revisando arquivos, reunindo milhares de depoimentos dolorosos e coletando informações genéticas de famílias pode ser considerada uma tarefa impossível.

Mas, não se esquecer do passado é importante. As famílias têm o direito de saber o que aconteceu com os seus entes queridos. As comunidades paralizadas pelo pesar necessitam encerrar o assunto para poderem seguir adiante e iniciar o processo de reconciliação. Todos precisamos descansar em paz.

Quase três quartos das pessoas desaparecidas durante os conflitos dos Bálcãs dos anos 90 foram encontrados e identificados. Este é um bom número – muito superior ao registrado em relação à maioria dos conflitos. Mas o progresso continua lento. A sorte de quase 11 mil pessoas continua sem explicação.

O CICV faz o máximo para ajudar na Bósnia e em outras regiões. Apoiamos governos, autoridades militares e grupos armados que, de acordo com o Direito Internacional Humanitário (DIH), têm obrigação de dar informações e realizar ações para reunir as famílias novamente. Entre outras atividades, oferecemos o nosso conhecimento forense para o processo de localização e identificação de desaparecidos. Mas, no âmago de todos os nossos esforços encontram-se as necessidades das famílias, que precisam não somente carregar uma pesada carga psicológica, como também lidar com profundas e duradouras consequências sociais, jurídicas e até econômicas quando um ente querido desaparece.

Commemoration of the sixth anniversary of the Srebrenica massacre.

Potocari, Srebrenica, Bósnia e Herzegóvina, 11 de julho de 2001. Comemoração do sexto aniversário. Três mil sobreviventes comparecem à cerimônia durante a qual foi colocada uma pedra branca no lugar onde hoje se encontra o memorial Srebrenica-Potocari, em um espaço localizado em frente ao campo abandonado de UNPROFOR. CC BY-NC-ND / CICV / J. Barry / v-p-ba-d-00057

Na Bósnia e Herzegóvina trabalhamos com o Instituto de Pessoas Desaparecidas da Bósnia e Herzegóvina, com a Sociedade da Cruz Vermelha da Bósnia e Herzegóvina e associações de apoio às famílias. Fazemos isso porque importa.

Importa, porque vivemos num mundo em rápida transformação. Onde um número cada vez maiores de pessoas são obrigadas a deixar as suas casas por causa de conflitos e crises. Onde sepulturas coletivas são desenterradas nos desertos do Oriente Médio. Onde milhares morrem ao tentar cruzar o Mediterrâneo rumo à Europa.

Mas neste mundo de "massas", "milhares" e "centenas de milhares", não nos esqueçamos do indivíduo. Não nos esqueçamos da pessoa, seja em Srebrenica ou em qualquer outro lugar, que um dia foi amada, cuidada e teve alguma vez as suas próprias esperanças e sonhos para o futuro.

Porque quando nos esquecemos do indivíduo, nos esquecemos de nós mesmos.

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