Madagascar: nova perna para uma nova vida

02 dezembro 2014
Madagascar: nova perna para uma nova vida
Elisabeth é atendida por fisioterapeutas e técnicos do centro Akanin'ny Marary em Madagascar, que recebe o apoio do Fundo Especial para Portadores de Deficiência

Em 25 de janeiro de 2014, Madagascar celebrou a posse do novo presidente no Estádio Nacional Mahamasina em Antananarivo. Às 19h daquele dia, Elisabeth saiu da sua pequena loja no distrito vizinho de Anosy para comprar produtos frescos com a sua irmã. De repente, uma luz forte cegou-a e uma explosão arrancou a sua perna esquerda, lançando-a vários metros de distância de onde ela estava.

Narindra Rakotonanahary, chefe do departamento de comunicação do CICV em Anatananarivo, nos conta como o CICV ajudou esta jovem de Madagascar.

Enquanto ainda estava consciente, Elisabeth escutou alguém gritar: "Ajudem! Ela está morta!" Ela não consegue, porém, se lembrar quem a levou para o hospital. Somente quando se despertou no dia seguinte, percebeu que havia perdido uma perna. E para aumentar a dor que já era insuportável, ela teve de passar pelo sofrimento da morte da mãe poucos dias depois de saber o que tinha acontecido com a filha.

Depois de dois meses no hospital, Elisabeth recebeu um primeiro membro artificial, mas não conseguia usá-lo. O CICV ofereceu recolocá-lo, mas para isso ela teria que ir até o Akanin'ny Marary ("Lar dos Doentes"), um centro amparado pelo Fundo Especial do CICV para Portadores de Deficiência. A sua irmã menor, que não saiu do seu lado desde o acidente, foi com ela até o centro, cerca de cinco horas de carro ao sul da capital. "Minha irmã sempre esteve por perto para me ajudar. Espero que com a nova prótese eu fique mais independente", conta a jovem. Ela já fala agora em voltar ao trabalho até o Natal.

Trabalho em equipe no centro

No centro Akanin'ny Marary, Christian e Thierry, dois técnicos ortopédicos, se dedicam a fazer uma nova prótese para Elisabeth. O trabalho deve ser executado com a maior precisão e a prótese não deve ter nenhuma falha. No entanto, quando Elisabeth provou o novo membro, continuou se sentindo incômoda na altura da coxa. Solenne, fisioterapeuta do Fundo Especial que visitava o centro, e Theo, parceiro local, mostraram a Elisabeth alguns exercícios que a poderiam ajudar a distribuir melhor o peso entre a perna e a prótese. Enquanto isso, os fisioterapeutas e técnicos identificaram os distintos pontos que necessitavam de ajustes durante os processos de remodelagem e endurecimento. Solenne explicou que este enfoque multidisciplinar é defendido pelo Fundo Especial do CICV: "o sucesso de um paciente para aprender a caminhar depende sobretudo de duas coisas: a qualidade do aparelho e os exercícios de acompanhamento."

Thierry e Christian, dois técnicos ortopédicos, preparam a prótese sob a supervisão atenta de Solenne, fisioterapeuta do Fundo Especial para Pessoas com Deficiência. 

Elisabeth não é muito loquaz, mas a energia que ela dedica aos exercícios diz tudo sobre a vontade de se adaptar à nova situação e seguir com a sua vida. Quando Solenne lhe perguntou que tipo de sapatos ela planejava usar para o dia-a-dia, para determinar que formato do pé e quanta flexibilidade a prótese deveria ter, ela optou por um salto baixo. "Quero usar sapatilhas pretas bonitas para ir à Igreja; para todos os dias, os chinelos são perfeitos", decidiu. Solenne entendeu perfeitamente o que ela queria e se ofereceu para ir comprar as sapatilhas.

Ao final do primeiro dia de exercícios, a equipe resolveu que ainda eram necessárias algumas modificações. Sob a supervisão atenta de Solenne, uma nova prótese foi tomando forma. "Amanhã ela vai caminhar!", exclamou a fisioterapeuta com confiança.

Ela pode caminhar!

No dia seguinte, Elisabeth estava muito sorridente: aprendia a caminhar com a nova prótese que agora era parte do seu corpo. "Não sinto mais nenhuma dor ou incômodo", disse. Solenne pediu então que ela repetisse os exercícios do dia anterior. "Pisar com o calcanhar, colocar o meu peso nele e pressionar – é como um refrão de uma música!" Elisabeth sabia que tinha um grande desafio à frente; tinha que dominar o movimento de distribuição do seu peso e aprender a caminhar de novo, mas ela confiava na equipe que a orientava e já tinha encontrado a sua força interior para enfrentar tudo isso. Os exercícios foram realizados em um espírito bem alegre que foi fazendo com que ela perdesse o medo de cair. No fim do dia, Elisabeth já conseguia dar alguns passos sozinha com a nova perna. A equipe compartilhava a sua alegria: "esperamos que, dentro de duas semanas, ela esteja caminhando por si só com as duas pernas", disse Solenne.

"Te dou um empurrãozinho?" brinca Solenne durante o exercício nas barras e Elisabeth cai na risada.

O Centro Akanin'ny Marary e o Fundo Especial

O Centro Akanin'ny Marary foi fundado por misisonários católicos em 1954. Atende quatro tipos de pacientes: pessoas que sofrem de lepra, tuberculose, problemas de saúde mental e deficiências físicas e psicomotoras (amputados, deformações congênitas, etc.). De janeiro a outubro de 2014, os serviços de colocação de próteses e reabilitação trataram mais de 200 pacientes. A maioria consistia de crianças com paralisia cerebral (40%), deformações congênitas (40%) ou paraplégicas, mas adultos também são admitidos para ver um especialista e receber próteses. Os serviços são prestados por uma equipe multidisciplinar composta de seis técnicos, um fisioterapeuta, três assistentes e dois sapateiros. O centro recebe capacitação, visitas, supervisão técnica e apoio material do Fundo Especial para Pessoas com Deficiência do CICV.

Os serviços de colocação de próteses e reabilitação do centro é muito conhecido e respeitado em Madagascar.

O Fundo Especial para Pessoas com Deficiência foi criado em 1983, pelo CICV, para assegurar a continuidade dos projetos da organização em benefício das pessoas afetadas por conflitos armados e outras situações de violência e para apoiar os centros de reabilitação física em países de renda baixa. Em 2001, o Fundo tornou-se uma fundação independente em conformidade com a legislação suíça. Tem por finalidade a melhoria da qualidade de vida das pessoas com deficiência, visando também fortalecer a capacidade das estruturas de reabilitação física e garantir a sustentabilidade dos serviços.

 Fotos: CC BY-NC-ND/CICV/N.Rakotonanahary