Geórgia: Tamar volta para casa

24-08-2011 Reportagem

Muitas famílias ainda aguardam notícias de parentes desaparecidos desde o conflito de agosto de 2008. Em 2010, a delegação do CICV em Tbilisi criou mecanismos para facilitar o diálogo sobre pessoas desaparecidas entre várias autoridades. A organização também lançou um projeto de apoio a famílias, especialmente enfocado em aspectos psicológicos. Com a colaboração de organizações psicossociais não governamentais locais de cada país, o projeto ajudou a cerca de 330 famílias desde seu início, em março de 2010.

     
    ©CICV / G. Chalatashvili 
   
Shida Kartli, Geórgia. Os filhos de Tamar conversam com a psicológa do CICV Maia Alkhazishvili. 
               
    ©CICV / M. Alkhazishvili 
   
Shida Kartli, Geórgia. Tradicional mesa de memória georgiana para Tamar e Elguja. Além de retrato das pessoas que morreram, há bottoms com suas fotos (que devem ser usados pelos parentes próximos durante 40 dias após a morte), orações, velas e um recipiente com grãos de trigo nos quais as velas são acesas, também por 40 dias. 
           

A médica e psicoterapeuta do CICV, Maia Alkhazishvili, é membro de uma equipe de projetos. Ela trabalhou com a primeira família a receber os restos de um parente próximo através do Mecanismo de Coordenação administrado pelo CICV, criado para lidar com os temas relacionados com o conflito de agosto de 2008. Este momento comovente terminou com três anos de incertezas para a família e permitiu que eles se enlutassem pelo parente seguindo os costumes do país. Os restos de Tamar foram exumados e transferidos para a Agência Forense Nacional Tbilisi, onde foram feitas as respectivas análises e identificação, com o apoio do Especialista em Temas Forenses do CICV para a região.

" A primeira vez que me encontrei com a família de Tamar foi no necrotério municipal em Tbilisi”, explica Maia. “Seu marido e seus dois filhos tentavam esconder suas emoções. A única coisa que seu marido, Elguja, me disse foi que ele se sentia muito grato ao CICV, porque sem o seu apoio ele não poderia ter passado pelo processo de luto como deve ser. Ele nos disse: “Desde o momento em que eu a perdi há três anos, esta é a primeira vez em que eu consigo chorar; sou muito grato a vocês por isso”.

Maia continua: “Cada caso é diferente. Cada um tem sua própria forma de lidar com a incerteza e a dor e sinto-me feliz por poder oferecer ajuda psicológica profissional como membro da equipe do CICV”.

A psicoterapeuta do CICV foi ao enterro de Tamar. Isto era mais do que uma simples obrigação profissional; a família lhe pediu que fosse quando saíssem do necrotério. O enterro foi realizado em um dos povoados próximos ao assen tamento para deslocados internos, onde a família está vivendo atualmente. É claro que este foi um dia triste, mas que também teve uma nota de alegria, já que deu a muitas outras famílias de pessoas desaparecidas uma nova esperança de que elas também poderão algum dia descobrir o que aconteceu com seus parentes desaparecidos.

Em seu discurso de despedida, o filho de Tamar disse: “Mãe, esperamos você por tanto tempo e você já está nos deixando hoje novamente. Estes três horríveis anos em que não sabíamos onde você estava ou se estava viva ou morta, terminaram. Mas agora sabemos onde você está. Viremos visitar seu túmulo, acenderemos velas e rezaremos por você”.

“Acompanhei a família em seu processo de luto depois do funeral”, conta Maia. “Visitei-os para dar-lhes apoio psicológico. Para mim, estes foram momentos muito comoventes e as conversas foram muito tocantes”.

Elguja já tinha câncer de garganta quando foi ao enterro. Ele uma vez confessou a Maia: “Eu sei a verdadeira razão para a minha doença. Quando Tamar e eu estávamos fugindo de Tskhinvali no início da guerra, tivemos que cruzar o rio. Tamar não pôde sair da água por causa da corrente. Eu estava lá, mas não pude ajudar minha esposa. Aquela raiva e tristeza ficaram atravessadas na minha garganta ao longo destes três anos. Agora me sinto aliviado e não tenho mais medo de morrer, porque sei que meu túmulo vai estar ao lado do túmulo dela. Vamos estar juntos de novo”.

O Dia Internacional dos Desaparecidos será lembrado em toda a Geórgia no dia 30 de agosto. O CICV convidará as famílias de pessoas desaparecidas para que compareçam. Elguja não estará entre eles – ele se reuniu novamente com sua amada Elguja em junho passado.