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Guiné-Bissau: luta para sobreviver na ilha de Jobel

15-04-2009 Reportagem

Os habitantes de Jobel lutam diariamente contra as dificuldades. Não há água potável e a ilha está sendo tomada pelo oceano. Mas, a partir de agora, eles podem contar com o apoio do CICV. A organização está construindo tanques para armazenar a água das chuvas e busca melhorar a produção pesqueira.

 
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Quinze quilômetros de diques protegem a ilha contra as marés. 
               
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    De toda as tarefas realizadas pelas mulheres, buscar água é a que consome mais tempo. As mulheres que têm crianças pequenas não têm outra opção, senão levá-las consigo.      
               
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    A construção de doze tanques de água aumentará consideravelmente a capacidade de armazenamento de água das chuvas, fazendo com que o insulanos sejam mais auto-suficientes.      
               
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    A coragem dos insulanos é um de seus poucos recursos.      
           

Jobel é uma pequena ilha de 6 km2 banhada pelo Atlântico, a sudoeste de São Domingos, uma das áreas mais pobres de Guiné-Bissau. Em um ponto isolado, os habitantes não têm eletricidade, saneamento e – o mais grave de tudo – não têm água potável. Os únicos recursos da ilha são uns poucos arrozais, a pesca e a extraordinária coragem dos habitantes.

O maior problema é que a ilha está situada abaixo do nível do mar. Uma pequena comunidade de 733 pessoas luta contra a força das marés. Para proteger os arrozais e criar novas áreas cultiváveis, eles construíram quilômetros de diques de argila ao redor de toda a ilha.

Esses diques são acompanhados por um sistema autoregulação de comportas. Construídos com troncos ocos de palmeiras, eles incorporaram válvulas que permitem que a água das chuvas seja drenada, ao mesmo tempo em que evitam que a água do mar vaze para dentro. Tudo foi feito de madeira e cordas – nenhum prego foi usado.

Os diques devem receber manutenção constante, já que podem ser danificados pelos caranguejos com o passar do tempo. Cada subida de maré representa um risco. Quando um dique não resiste, várias seções da ilha são inundadas. As casas – todas sobre palafitas – ficam, de repente, isoladas. Os diques e as canoas passam a ser a única maneira de se locomover.

É necessária mais de uma semana para consertar uma fissura. As únicas ferramentas dos insulanos são seus facões e machados. São necessários três a quatro anos - se outros diques não cederem nesse intervalo – para dessalinizar a terra e prepará-la para novas plantações.

  Sem água potável  

Para a comunidade, a completa falta de água potável na ilha representa o outro maior desafio. Durante a estação chuvosa, de junho a outubro, eles conseguem água das chuvas. Mas a capacidade de armazenamento é limitada e a estação seca é muito longa.

Começa, então, uma rotina semanal exaustiva para as mulheres de Jobel. “Não temos escolha, senão sair em canoas em busca de água na terra seca”, explica Anna Djicélé, uma representante das mulheres da ilha. " Levamos um dia inteiro, quando não temos que passar a noite lá por causa do mau tempo. Às vezes, as canoas viram e acabamos perdendo toda a água. As mulheres que têm crianças pequenas têm que levá-las consigo. Até mulheres grávidas têm que ir. "

As mulheres da ilha têm uma longa lista diária de afazeres domésticos: cuidar da casa, educar as crianças, recolher ostras e madeira, pescar camarões e trabalhar nas plantações de arroz. Elas, inclusive, ajudam a manter os 15 quilômetros de diques que cercam a ilha. " Mas buscar água é o que consome a maior parte de nosso tempo " , disse Fatou Diatta.

Cientes das dificuldades que essa comunidade enfrenta para viver, em maio de 2008, o CICV assumiu a responsabilidade de ajudá-los de seu vizinho, o Senegal. Arroz, óleo e sementes foram distribuídos para os habitantes para compensar as fracas colheitas de 2007, como consequência das poucas chuvas.

Eles também receberam equipamentos de pesca e, em breve, terão uma grande canoa motorizada. Isso deve ajudar a aumentar a produção pesqueira e facilitar o transporte de peixes para o mercado de São Domingos. Os habitantes também poderão evacuar os doentes com mais rapidez para o hospital mais próximo no continente.

  Um projeto ambicioso  

Mas o projeto mais ambicioso é a construção de 12 tanques de águ a, cada um com capacidade de armazenar 10m3. Isso aumentará consideravelmente a capacidade de armazenamento de água das chuvas e fará com que os insulanos sejam mais auto-suficientes.

" Os tanques de água foram projetados e construídos para ajudar a comunidade " , explica Martin Gauthier, delegado do CICV responsável pelo programa. " Os habitantes deram a areia e os meios para transportar o material, que inclui quase doze toneladas de cimento. O maior desafio foi logístico. Tudo, exceto a areia e a argila, teve de ser transportado para a ilha e depois levado para diferentes pontos de canoa " .

O gerenciamento de cada tanque de água será de responsabilidade de um comitê formado por um homem e uma mulher. " Isso garantirá a distribuição justa de água entre quatro e onze famílias, cerca de 60 pessoas, que estarão dividindo um tanque de água " , continuou Gauthier.

" Esses tanques mudarão nosso dia-a-dia " , disse, contentíssimo, Bassirou, que foi eleito o líder da comunidade. Sua esposa, Abalo Niassi, ressaltou com satisfação que isso foi " um grande passo para as mulheres de Jobel " , já que os tanques diminuirão seu fardo.

As pessoas em Jobel esperam ansiosamente o fim de maio e o começo da temporada de chuvas. Mas um novo desafio já surge. Desencorajados pelas más condições de vida, um crescente número de jovens está abandonando a ilha e existe uma possibilidade real de decréscimo de população. E o aumento do nível da água – uma consequência do aquecimento global – está se tornando um grande problema, que, a longo prazo, poderá ameaçar a sobrevivência da comunidade.