Haiti: Florence Nightingale de Porto Príncipe

12-07-2010 Reportagem

A medalha Florence Nightingale é a mais alta distinção internacional para enfermeiros ou assistentes de enfermaria voluntários. Este ano foi concedida a três haitianos que deram provas de coragem e dedicação admiráveis ao ajudar as vítimas do devastador terremoto de 12 de janeiro. Michaëlle Colin – Miss Colin para seus colegas e pacientes – enfermeira do sanatório de Porto Príncipe, é uma das três pessoas agraciadas.

     
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Miss Colin, acompanhada de uma funcionária do CICV, conversa com uma paciente. 
               
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O sanatório de Porto Príncipe tinha vários edifícios bem equipados. Agora só pode prestar atendimentos ambulatoriais nas dez barracas que o CICV lhe entregou. 
               
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Miss Colin em frente das ruínas dos dormitórios do sanatório que haviam sido reformados e alojavam mais de 200 doentes.      
               
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Uma paciente do sanatório de Porto Príncipe. 
           

Há sessenta anos, as vistosas instalações do sanatório resplandeciam em meio à profusa vegetação do bairro de Carrefour-Feuillies. De suas janelas, os pacientes podiam contemplar a vista para o mar do Caribe. Hoje em dia, a paisagem é muito diferente: tristemente, nas colinas estão milhares de moradias em ruínas. Um campo improvisado ao lado do sanatório aloja centenas de deslocados; são poucas as pessoas que se arriscam a circular por entre os escombros e as pedras.

No entanto, a poucos metros desses edifícios, cujas ruínas demonstram a violência do sismo, o sanatório continua funcionando em barracas montadas no antigo pátio. Às nove da manhã, sorridente e cheia de energia, Miss Colin, chefe da enfermaria do sanatório, começa sua ronda. Cumprimenta os doentes, verifica atentamente a distribuição de remédios e alimentos, e atende uma jovem paciente. " O nome dela é Ruth, tivemos de tirar líquido de seus pulmões, mas agora está tudo bem " , nos conta em voz baixa.

  "Nunca perdi a esperança"  

Miss Colin tem 61 anos de idade, dos quais 26 trabalhou no sanatório. Ela se lembra de centenas de histórias felizes. Seu rosto de ilumina quando conta a história de um adolescente doente e assustado, a quem tranquilizou, cuidou e, finalmente, ajudou a curar. Também cuidou de centenas de detidos que foram enviados para receber tratamento nesse estabelecimento especializado na luta contra a tuberculose. Eles chegavam aí magros, com a pela amarelada, recuperavam o peso e, poucas semanas depois, tinham alta e era possível notar a transformação.

" Uma enfermeira tem de ser fort e " . Miss Colin não se esquece dos momentos difíceis, como o começo da pandemia de Aids, quando centenas de doentes morriam de tuberculose. " Mas, sem dúvida, a prova mais difícil para mim foi o terremoto " , acrescenta.

  "Tudo mudou em 35 segundos"  

O bairro onde mora, que não está longe do sanatório, foi devastado pelo terremoto. Sua casa foi destruída e vários amigos morreram. Imediatamente, inúmeras pessoas foram buscar ajuda e consolo com essa pessoa tão conhecida na vizinhança. " Não havia muito tempo para pensar, tínhamos que agir com rapidez. Como não havia nenhum médico, tive que assistir também uma jovem que deu à luz poucas horas depois do sismo " .

" Estávamos Miss Colin e eu, debaixo do sol, em frente às ruínas do sanatório, o pátio estava repleto de feridos " , conta a diretora da unidade médica, Jocelyne Dorlette, outra mulher dedicada e cheia de energia. " Todos os pacientes do sanatório sobreviveram, mas alguns de nossos colegas morreram em suas casas. Nossa infraestrutura foi arruinada e o material foi destruído ou saqueado. Mas, ainda que não tivéssemos nada, deveríamos continuar de qualquer maneira e encontrar a maneira de atender os pacientes com tuberculose, para que a doença não avançasse " .

  "O sanatório também é sua casa"  

Miss Colin trouxe um dos primeiros elementos para consertar o sanatório devastado: a metade de uma lona que tinha recebido para cobrir seu próprio teto. " Ela estava na rua, mas compartilhava o pouco que tinha com o sanatório " , conta a doutora Dorlette. " Para ela, o sanatório também é sua casa " .

Nos dias seguintes ao terremoto, outros médicos e enfermeiros retomavam suas tarefas no sanatório. Enquanto i sso, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) pôde tirar a água do pátio, instalou as barracas e um gerador, construiu duchas e latrinas e entregou material para fazer radiografia. Os pacientes foram retornando e, desde março, já são mais de 800 adultos e crianças, dos quais mais de 40 são casos novos.

" Agora nossa luta é para criar um espaço de interação " , explica Miss Colin. " Por enquanto, somos obrigados a encaminhar os casos graves para outros estabelecimentos, que deveriam ficar em observação. Vamos conseguir, pois já temos alguns colchões, costuramos algumas capas plastificadas para adaptá-los às necessidades hospitalares " .

O otimismo e a energia de Miss Colin contagiam mais do que as doenças contras as quais luta todos os dias. Por isso, costuma estar acompanhada de jovens enfermeiros, dos quais se ocupa voluntariamente. " É uma verdadeira enfermeira, uma lutadora, um modelo. Realmente, merece a medalha Florence Nightingale " , continua a doutora Dorlette. " O sanatório sobreviverá sempre que pudermos contar com pessoas como ela " .

     

 
   
No Haiti, desde 12 de janeiro de 2010, o CICV:
   
  • Realizou buscas, com a colaboração da Cruz Vermelha Haitiana, de familiares de 121 menores desacompanhados depois do sismo, assim como de menores desaparecidos de cerca de 60 famílias. Além disso, 17 menores foram reunidos com seus familiares e em 50 casos já foi restabelecido o contato entre familiares;
  •     Distribuiu mais de 300 toneladas de alimentos e gêneros de primeira necessidade para mais de 30 mil vítimas e para dez orfanatos e escolas de Porto Príncipe;
  • Entregou medicamentos e material para 15 centros médicos, além de 14 centros de saúde que a Cruz Vermelha Haitiana abriu imediatamente depois do sismo, em Porto Príncipe e Petit-Goâve;
  • Prestou apoio a quatro postos de saúde da Cruz Vermelha Haitiana em Cité Soleil e Martissant, onde foram atendidos 5.648 doentes ou feridos; 751 casos graves foram encaminhados a diferentes hospitais;
  • Continuou a reforma da rede de abastecimento de água de Cité Soleil afetada pelo terremoto, em benefício de mais de 200 mil residentes;
  • Realizou visitas a mais de cinco mil detidos em 32 presídios e delegacias de polícia e prestou apoio às autoridades penitenciárias para a reabilitação da infraestrutura e gestão do serviço de saúde nos presídios.

Seis meses depois da catástrofe, o CICV continua participando da resposta humanitária do Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho no Haiti, sobretudo por meio de seus programas de restabelecimento de laços familiares. A organização se concentra também em suas atividades tradicionais de resposta aos problemas humanitários nos centros de detenção e em bairros vulneráveis.