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“As Pessoas com Fome não se Podem Permitir Ter Medo” - Angola, 2004

02-12-2004 de Lena Eskeland

Na aldeia de Bairro Fátima os raios de Sol das primeiras horas da manhã fustigam os corpos de quatro lavradores, muito atentos, que se encontram a trabalhar nos campos. Não se ouve ninguém falar. A umas centenas de metros de distância, para lá de uma barreira de estacas brancas e vermelhas e de placas para assinalar a presença de minas, oito desminadores encontram-se curvados de joelhos, fixando o solo não sem menos concentração que os lavradores.

“Nós costumávamos cultivar também aquela área,”diz Paolo Kupua que tem 60 anos e aponta para o campo minado. Kupua é um dos lavradores do Bairro Fátima, próximo do Huambo, uma das maiores cidades de Angola. “As minas criaram uma quantidade de problemas. Muitas pessoas perderam os braços e as pernas aqui. ”Os desminadores têm trabalhado para limpar este campo de minas desde Janeiro. Até hoje encontraram e destruíram 369 minas antipessoal, que se encontravam enterradas no solo à volta do aeroporto durante a guerra. Durante muito tempo, estas minas impediam os habitantes de Fátima de cultivar estes férteis terrenos. Durante anos, houve alguns incidentes. O ultimo foi porque uma mulher saiu do seu campo e penetrou numa área minada. A mulher morreu quando tocou com a pá numa mina.

“Eu não tenho medo, porque tenho fome,” diz a Teresa Chilombo, um lavradeira de 56 anos que vive no Bairro Fátima com as suas nove crianças. “As pessoas com fome não se podem permitir ter medo.” Quando os 20 desminadores da ONG britânica Halo Trust acabarem o seu trabalho dentro de algumas semanas – cinco meses depois do principio das actividades de desminagem – 20 famílias de Fátima poderão de novo plantar mandioca e batata-doce, sem riscos para as suas vidas e para as suas pernas e braços.

  Um processo lento  

A firma Halo principiou a trabalhar em Angola em 1994 e é agora uma das maiores organizações de desminagem no país. Neste momento, esta ONG emprega cerca de 400 desminadores que removem minas com a ajuda de detectores metálicos e de pás em quatro das 18 províncias. O outro pessoal encontra-se ocupado na remoção mecânica de minas, assi m como em levantamentos e marcação de áreas com minas.

“Isto é um processo lento mas o trabalho tem que ser feito com perfeição”, diz o Domingos Justino, Chefe de Operações da Halo Trust na província de Huambo. O processo tem prosseguido mais lentamente porque há falta de informações sobre a localização das minas, explicou o Director do Programa Halo em Angola, Gerhard Zank. Durante quase três décadas de guerra, que devastou o país vários actores colocaram quantidades desconhecidas de minas. Algumas minas foram colocadas para assegurar estruturas militares e económicas, mas muitas foram colocadas em estradas, em campos e em torno de fontes de agua para impedir o acesso da população civil a estas áreas.

Além das minas, um número desconhecido de restos de explosivos provenientes da guerra tais como morteiros não detonados, granadas e bombas, ameaçam as pessoas.

  Necessidade de obter fundos  

“Lamentavelmente, as áreas perigosas são muitas vezes descobertas, somente quando há um incidente” diz Zank. “Porque muitas das estradas foram minadas, um dos problemas principais consiste em conseguir acesso a uma área para fazer levantamentos e para a desminar em seguida.”A falta de informações em geral sobre grandes partes do país torna difícil estimar quanto tempo vai ser necessário para terminas a desminagem. Conforme é requerido pela Convenção sobre a Proibição de Minas Antipessoal, Angola ratificou a Convenção no ano 2002, e de acordo com a lei, deveria remover todas as minas até 2012. Halo estima que, com a sua capacidade de remoção corrente, vai levar 8 a 10 anos para desminar as áreas de primeira prioridade em três das quatro províncias, onde esta firma se encontra a trabalhar.

“Para ser capaz de conseguir este objectivo de desminagem, é essencial que continue a haver interesse da parte dos doadores. Nós necessita mos assegurar a longo prazo uma manutenção dos fundos recebidos, para poder estabelecer planos que cubram as necessidades de desminagem”, salienta Zank.

  Prevenção de incidentes  

Entretanto, a devastação causada pelas minas não se limita aos acidentes que elas provocam em civis insuspeitos. As minas dificultam também o restabelecimento de dezenas de milhares de pessoas que foram deslocadas durante a guerra e contribui para retardar o desenvolvimento geral do país. Para prevenir outros incidentes, os residentes e os retornados recebem informações sobre os perigos das minas e são ensinados a minimizar a ameaça que elas representam. Apesar disto, há pouco tempo duas crianças correram através de um campo minado no Bairro Fátima, para ver os aviões no aeroporto. Morreram ambas quando pisaram sobre uma mina. “As crianças eram da cidade de Huambo. As pessoa que vivem em Fátima sabem que esta área é perigosa” diz a Teresa Chilombo.

A Feliciana, que tem treze anos, está de acordo. Ela diz que ela e os amigos nunca brincam nessa área. “Disseram-nos na escola que devíamos ter muito cuidado. Os professores ensinaram-nos o que são as minas e mostraram-nos como são os sinais de perigo”.

  Importância da colecta de dados  

A Cruz Vermelha Angolana é uma das organizações que procura constantemente sensibilizar as pessoas em comunidades afectadas pelas minas. Todavia, como se viu no Bairro Fátima, algumas pessoas continuam a usar áreas perigosas apesar dos riscos, muitas vezes por causa de necessidades económicas. Em tais casos, fornecer mais informações acerca dos perigos causados pelas minas não vai provavelmente modificar este comportamento.

O desafio posto pelos programas de formação consiste em assegurar que a população local receba a uxílio para encontrar soluções reais e de longo prazo para os seus problemas. Isto leva tempo mas não é uma tarefa impossível. “As nossas actividades no domínio da formação sobre riscos apoiam também todos os esforços de desminagem. Nós colectamos informações acerca da localização das minas e de resíduos explosivos de guerra, de modo que as áreas perigosas possam ser demarcadas e os desminadores possam começar a remover minas das regiões de primeira prioridade” diz Kiala Simão, Coordenador Nacional da Cruz Vermelha Angolana para a formação sobre os riscos causados pelas minas.

  Um problema que vai ter fim  

" As minas devem ser removidas, são um problema que chegará ao fim, contraditoriamente a outros problemas como por exemplo a malária Uma vez removidas elas não voltam ao terreno”, diz Zank. Em San António – um outro campo minado fora de Huambo – foram encontradas quatro minas que foram detonadas pelos desminadores, durante o dia. Quando as explosões foram ouvidas, um jovem a quem tinham amputado uma perna, deu pulos de contente, com as suas muletas e gritou vitória.

“Eu perdi uma perna por causa das minas. É importante que as desminagens continuem”, disse ele enquanto a fumaça das detonações subia ao céu. Há ainda mais minas que necessitam de ser removidas. Mas estas quatro minas já não vão fazer mal a ninguém”.

  Lena Eskeland, Delegação do CICV em Luanda.  

Este texto pode ser citado em parte ou na sua totalidade. Quando for citado na sua totalidade, queiram referir o nome do autor e da Delegação do CICV acima indicada. Imagens impressas de qualidade das ilustrações, podem ser obtidas através de ICRC Library and Research Service (CID) em cid.gva@icrc.org ou +41 22 730 20 30.

Para contactos directos pelos meios de comunicação com o autor ou pessoas citadas nesta história contactar Lena Eskeland em luanda.lua@icrc.org ou Camilla Waszink em weapons.gva@icrc.org ou tel.: +41 22 730 26 67.