Afeganistão: primeiros socorros para taxistas salva vidas

07 setembro 2016
Afeganistão: primeiros socorros para taxistas salva vidas
Kandahar, Afeganistão, 29 de agosto de 2016. Sakhi Dad (esq.) pratica o uso de materiais básicos para interromper uma hemorragia antes de transportar um paciente para o hospital. CC BY-NC-ND / CICV / Shamshad Omar

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) oferece cursos de primeiros socorros para taxistas no Afeganistão que transportam vítimas dos confrontos ao hospital. Esta ação está salvando vida, segundo os médicos locais.

Zamaryalai é um motorista de taxi de 35 anos da província de Uruzgan, no sul do Afeganistão. Eventos trágicos ocorridos oito anos atrás o levaram a se envolver com o programa do CICV de Assistência aos Feridos de Guerra, que treina taxistas em primeiros socorros. "Fiquei chocado quando um morador do nosso vilarejo sangrou até a morte na minha frente", recorda Zamaryalai. "Foi quando decidi fazer alguma coisa para ajudar os feridos e aprender primeiros socorros parecia a melhor forma de começar".

Zamaryalai contou a sua história durante um recente curso de atualização em primeiros socorros para 14 motoristas no programa do CICV. O trabalho deles inclui evacuar combatentes e civis feridos durante um confronto para o estabelecimento de saúde mais próximo. Embora não sejam funcionários do CICV, os motoristas levam consigo uma "carta de facilitação" para ajudá-los a negociar nos postos de controle ou outros obstáculos. A carta também explica a necessidade de que os doentes e feridos tenham acesso a um atendimento médico seguro e em tempo hábil.

"Desde o início deste trabalho, já realizei primeiros socorros em cerca de 800 pessoas feridas antes de levá-las ao hospital", explicou Zamaryalai durante uma das sessões de discussão. "Já houve vezes que transportei até oito pessoas em um dia de Uruzgan ao Hospital Regional de Mirwais, em Kandahar, que está a quatro horas de distância."

Kandahar, Afghanistan, 29 August 2016. Sakhi Dad, (left) practices the use of basic materials to stop bleeding before transporting a patient to hospital.

Kandahar, Afeganistão, 29 de agosto de 2016. Zamaryalai (dir.) pratica a imobilização de um pé fraturado usando os materiais disponíveis localmente antes de levar o paciente para o hospital. CC BY-NC-ND / CICV / Shamshad Omar

"Se for alguém envolvido no conflito, nunca pergunto quem é ou a qual lado pertence", continuou Zamaryalai. "O que importa para mim é salvar a vida dessa pessoa, não o que a pessoa fez antes".

Tanto os civis como os portadores de armas foram beneficiados pelo serviço de taxi de Zamaryalai. "Lembro-me de ter ajudado uma moça que fora gravemente ferida na explosão de uma mina terrestre", recorda. "Interrompi a hemorragia e imobilizei a perna quebrada, depois de estabilizá-la, a levei a Mirwais. Ela teria morrido no caminho se não tivesse recebido primeiros socorros antes de ir para o hospital."

Kandahar, Afghanistan, 29 August 2016. Abdul Wali (right) practices giving first aid to a man with a chest wound.

Kandahar, Afeganistão, 29 de agosto de 2016. Abdul Wali (dir.) pratica primeiros socorros em um homem com um ferimento no peito. CC BY-NC-ND / CICV / Shamshad Omar

A equipe do Hospital de Mirwais comentou a diferença que veem no estado de um paciente quando chega ao hospital depois de ter sido estabilizado. "Em muitos casos, os socorristas realmente salvam as vidas dos pacientes, já que a maioria vem de muito longe", comentou o Dr. Aziz Ahmad, responsável pela área de cirurgia. "Sem os primeiros socorros, tenho certeza de que muitos deles não chegariam vivos."

Mas as transferências nem sempre acontecem facilmente. "Uma vez, levava um civil para o hospital depois de ter sido ferido por um foguete", conta Zamaryalai. "Fui parado por homens armados no caminho, que me surraram. Eles me acusavam de transportar 'o inimigo' e ameaçaram matar o homem ferido. O CICV interveio para explicar a neutralidade do nosso trabalho e as obrigações dos portadores de armas de facilitar a transferência de doentes e feridos aos estabelecimentos de saúde e me liberaram."

Os outros 13 motoristas que participaram do curso têm histórias parecidas para contar. Abdul Wali, 37 anos, e Sakhi Dad, 60 anos, foram dois deles. "Arriscamos as nossas vidas regularmente para prestar primeiros socorros aos feridos e transportá-los para fora do campo de batalha", comentavam durante uma discussão sobre os desafios e pressões do trabalho deles.

Kandahar, Afghanistan, 29 August 2016. The drivers watch a video of their role play to help them identify best practices and receive feedback from the course facilitators.

Kandahar, Afeganistão, 29 de agosto de 2016. Os taxistas assistem a um vídeo sobre o papel que desempenham para ajudar a identificar as melhores práticas e recebem os comentários dos instrutores do curso. CC BY-NC-ND / CICV / Shamshad Omar

Salvar uma vida significa tudo para mim.

Cerca de 60 motoristas de taxi participam do programa do CICV de Assistência aos Feridos de Guerra, ministrado em todo o sul do Afeganistão. Eles são treinados em primeiros socorros e compartilham uma sensação comum de orgulho pelo trabalho feito. "Salvar uma vida significa tudo para mim", afirma Zamaryalai, diante de todos os colegas do curso.

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