África: 44 mil pessoas estão registradas como desaparecidas no continente, quase metade delas crianças

26 agosto 2020
África: 44 mil pessoas estão registradas como desaparecidas no continente, quase metade delas crianças
A filha de Kaltum desapareceu na Nigéria há nove anos. A mãe ainda tem esperança de que a filha esteja viva e que possa vê-la de novo. Mais da metade das 44 mil pessoas registradas como desaparecidas pelo CICV na África são crianças. CICV

Nairóbi (CICV) – Neste 30 de agosto, Dia Internacional dos Desaparecidos, quase 44 mil pessoas em toda a África estão registradas como desaparecidas pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV). As restrições impostas para conter a propagação da Covid-19 criam novos desafios para as buscas. Do total de casos, 45% eram crianças no momento em que desapareceram.

"Essa cifra é uma gota no oceano da verdadeira escala de pessoas que são buscadas pelos familiares", afirma Sophie Marsac, conselheira regional do CICV para os desaparecidos e suas famílias na África. "Conflitos, violência, migração e choques climáticos continuam separando famílias durante a pandemia, e nosso trabalho para encontrar as pessoas desaparecidas se tornou ainda mais difícil."

Nigéria, Etiópia, Sudão do Sul, Somália, Líbia, República Democrática do Congo e Camarões respondem por 82% dos casos de desaparecidos do CICV na África. A Nigéria encabeça a lista com cerca de 23 mil casos, impulsionados quase inteiramente pelo conflito no nordeste do país. Todos os sete países tiveram um aumento do número de pessoas registradas como desaparecidas pelo CICV no primeiro semestre de 2020.

"O desaparecimento do meu filho me deixou desesperado. Sinto que ele retornará. Nos primeiros dois meses me tranquei em casa, emocionalmente deprimido", diz Juma Kedai Korok, de 52 anos, cujo filho de 31 foi sequestrado há quatro anos por um grupo armado no Sudão do Sul. Juma não teve mais notícias do filho. "Querido Konyi, se você ainda estiver vivo e escutar estas palavras, saiba que suas irmãs, irmãos, tias e toda a sua família estão te esperando. Nós apenas queremos ouvir sua voz e ver você."

Além do aumento de casos, a COVID-19 criou novos desafios na busca pelos desaparecidos. Já não é possível reunir pessoas em grandes grupos para que ouçam nomes ou examinem fotos. Muitos países suspenderam as viagens domésticas entre estados ou províncias, dificultando as buscas em áreas geográficas mais amplas. O acesso a centros de detenção, onde o CICV poderia procurar por pessoas, foi suspenso em alguns lugares para limitar o risco de exposição ao coronavírus.

Ferramentas digitais, como os nossos sites de busca e restabelecimento de laços familiares de migrantes desaparecidos (Trace the Face Southern Africa e Trace the Face Europe) têm se mostrado eficazes em meio às limitações trazidas pela COVID-19.

"O Dia Internacional dos Desaparecidos deve nos recordar que inúmeras pessoas na África buscam um ente querido. Muitas delas são pais buscando um filho", diz Marsac. "Famílias de desaparecidos muitas vezes enfrentam sofrimentos psicológicos e desafios econômicos e jurídicos. A tragédia das pessoas desaparecidas é uma crise humanitária que não pode ser esquecida enquanto o mundo se concentra na luta contra a pandemia de COVID-19. Neste dia, o CICV deseja expressar sua solidariedade às famílias e homenagear aqueles que estão desaparecidos."

O CICV pede às autoridades que reconheçam a tragédia das pessoas desaparecidas e o impacto sobre as famílias, e que façam tudo ao seu alcance para evitar novos desaparecimentos, adotem medidas para realizar buscas e forneçam informações aos familiares sobre a sorte e o paradeiro dos entes queridos.

"Eu quase não podia dormir", diz Kaltum, cuja filha desapareceu na Nigéria há nove anos. "Sentia no meu coração que minha filha estava viva. Ainda tenho esperança."

INFORMAÇÕES POR PAÍS

  • A Nigéria é a nação da África onde o CICV registra o maior número de desaparecidos: quase 23 mil. Mais de 90% deles decorrem do conflito no nordeste do país, e 57% eram crianças quando desapareceram. Mais de 360 casos foram abertos pelo CICV na Nigéria no primeiro semestre de 2020.
  • Registramos mais de 3,3 mil pessoas desaparecidas na Etiópia, a maioria (64%) mulheres e crianças. Confrontos entre comunidades e migração são hoje os principais fatores por trás dos desaparecimentos no país. Mais de 250 casos foram abertos até agora em 2020.
  • Nossas equipes no Sudão do Sul buscam mais de 5 mil pessoas, a maioria desaparecidas em virtude do conflito e da violência entre comunidades. Entre elas, pessoas que foram registradas como desaparecidas por nossa equipe do Sudão do Sul ou por suas famílias residentes em países como Uganda, Etiópia, República Democrática do Congo e Quênia.
  • Mulheres e crianças são 75% das mais de 3,2 mil pessoas registradas como desaparecidas pelo CICV na Somália. Entre elas, cerca de 2,3 mil pessoas registradas como desaparecidas por familiares que vivem na Somália ou no exterior, além de outros 300 somalis dados como desaparecidos fora do país. O CICV trabalha com o serviço somali da BBC para transmitir nomes e mensagens às comunidades de todo o país seis vezes por semana.
  • Mais de 500 pessoas desaparecidas foram registradas por nossas equipes na República Democrática do Congo em 2020, elevando o total de desaparecidos para 1,8 mil. A maioria desapareceu por causa da violência ou do conflito, sobretudo em decorrência dos combates na província de Kasaï.
  • O conflito e a migração são as causas dos desaparecimentos que registramos na Líbia, que superam 1,6 mil. Desde 2017, observamos uma mudança: mais casos têm sido abertos no exterior por famílias que buscam seus entes queridos na Líbia. Eles podem ter entrado no país na rota de migração para a Europa. Muitos desses desaparecidos são crianças.
  • O CICV mantém mais de 1,5 mil casos abertos de pessoas desaparecidas em Camarões; mais de 420 foram registrados por nossas equipes em 2020. A quantidade de casos aumenta a cada ano. Três quartos resultam do conflito no extremo norte do país.

Nota para os editores: Esses números representam apenas os casos documentados pelo CICV e as Sociedade Nacionais da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho como pessoas desaparecidas até o final de junho de 2020. Não se referem ao total de desaparecidos na África. O CICV considera uma pessoa como desaparecida quando alguém nos informa que está buscando um membro da sua família. O caso permanece aberto até que a rede da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho esclareça o que aconteceu com a pessoa ou até que a família nos informe que encontrou o seu ente querido.

Mais informações:
Crystal Wells, porta-voz do CICV na África, tel: +254 716 897 265