Crise na Ucrânia: Imagens de desespero em Sviatogorsk

05 março 2015
Crise na Ucrânia: Imagens de desespero em Sviatogorsk
Armazém do CICV em Sviatogorsk, na Ucrânia. Pessoas deslocadas fazem fila para se registrar e receber ajuda de emergência. De acordo com a ONU, o conflito na Ucrânia obrigou um milhão de pessoas a deixar suas casas. [CC BY-NC-ND / CICV / D. Marchenko]

O conflito no leste da Ucrânia custou mais de 5 mil vidas e destruiu muitas outras. Segundo cifras da Organização das Nações Unidas (ONU), mais de um milhão de pessoas foram deslocadas em decorrência do confronto. A cidade de Debaltsevo, palco de alguns dos combates mais ferozes das últimas semanas, viu boa parte de sua população evaporar no inverno gelado. Muitos se espalharam por cidades e povoados vizinhos, como Sviatogorsk, cerca de 100 quilômetros a noroeste.

Contra o pano de fundo do cessar-fogo acordado em Minsk em 12 de fevereiro de 2014, o Comitê Internacional da Cruz Vemelha (CICV) está trabalhando em ambos os lados da linha de frente para levar ajuda aos que abandonaram suas casas. Dmytryo Marchenko é um trabalhador humanitário do escritório do CICV de Kharkiv. Ele enviou este relatório depois de uma visita de campo a Sviatogorsk, onde ele e sua equipe recentemente distribuíram itens de primeira necessidade a pessoas deslocadas.

6 de fevereiro de 2015, 9h da manhã. Ainda está escuro. Mas apesar do vento gelado e da neve espessa, uma pequena multidão se reuniu em frente ao armazém localizado no que já foi o setor de lazer de Sviatogorsk, onde turistas vinham em peso para visitar os populares banhos curativos da elegante cidade termal. Hoje estamos distribuindo alimentos e artigos de higiene a pessoas que recentemente foram obrigadas a deixar suas casas. Desde que os combates se reiniciaram no início de janeiro, milhares de civis fugiram do que se tornou conhecido como "bolsão de Dabaltsevo" devido à forma como a linha de frente serpenteia ao redor dele.

Um grupo de voluntários de uma ONG local está ajudando nossa pequena equipe. Todos eles são deslocados também, mas vivem em Sviatogorsk desde o verão passado e fazem questão de ajudar os recém-chegados. Rajadas de neve caem em torno das pessoas que aguardam na fila, empacotadas em seus casacos e cachecóis. O frio é intenso, mas ninguém está disposto a ir embora sem verificar se é elegível para receber ajuda – 60 quilos de alimentos e uma caixa de artigos de higiene por família.

Rapidamente, montamos nosso balcão de registro. As pessoas deslocadas se organizam em uma fila, silenciosamente. À medida que avançam para se registrar, uma de cada vez, eu converso com elas. Todas parecem cansadas e com frio, e todas exibem sombras grandes e escuras sob os olhos.

ICRC warehouse, Sviatogorsk, Ukraine. Displaced people collect food and hygiene supplies.

Armazém do CICV em Sviatogorsk, na Ucrânia. Pessoas deslocadas recebem alimentos e artigos de higiene.
CC BY-NC-ND / CICV / D. Marchenko

Uma mulher idosa cambaleia fora da fila e se senta sobre uma pedra coberta de neve. "Fiquei em pé por cinco dias e minhas pernas não conseguem mais me sustentar", diz ela. "Tive de ficar no ônibus que nos levou para fora de Debaltsevo e depois precisei caminhar por um dia e meio para encontrar um quarto em Sviatogorsk. Em seguida, tive de entrar na fila para me registrar no Conselho Municipal como uma deslocada interna. Fiquei um dia inteiro na fila mas não consegui chegar à mesa de registro, pois a fila era longa demais. Tive de voltar no dia seguinte e formar fila de novo. Fui registrada ontem, pouco depois das 15h. Foi o segundo dia em que tive de permanecer de pé desde a manhã sem nada para comer. Agora estou cansada e com muito frio, e não tenho forças para fazer fila de novo." Ao redor dela, as pessoas assentem. "O mesmo aconteceu comigo", diz uma mulher, "e tivemos de trazer nossos filhos conosco também!"

A mulher que acaba de falar é acompanhada por uma garota de uns 9 ou 10 anos. A menina segura firme o bolso do paletó de sua mãe com uma mão. Com a outra, mantendo o pequeno punho duro e cerrado, ela bate ritmicamente na própria boca. "Você tem direito a assistência especial para sua filha?", pergunto gentilmente. A mãe logo entende minha verdadeira pergunta. "Não", responde amargamente, "minha filha não tem uma dificuldade de aprendizagem. Ela acaba de passar três semanas em um abrigo subterrâneo em Debaltsevo enquanto bombas destruíam nosso bairro."

Uma mulher mais jovem se junta à conversa. Ela tem um bebê nos braços e uma ferida recente numa das mãos. "Também estive em um abrigo subterrâneo em Debaltsevo", diz ela. "Mas meu bebê estava chorando todo o tempo por causa do bombardeio e da escuridão, e os outros não podiam mais tolerar os gritos. Foi muito constrangedor. Em todo caso, não havia luz no abrigo e eu não podia alimentar meu filho nem mantê-lo limpo, então decidi voltar ao meu apartamento. Cinco dias atrás, saí às ruas em busca de água. Houve uma explosão e algo atingiu minha mão. Não sei o que foi, mas quando vi o sangue eu soube que era hora de ir embora."

As pessoas começam a conversar. O principal assunto são as famílias e os amigos que ficaram para trás. Muitas delas, a maioria mulheres, insistem em nos dar os nomes e endereços dos parentes que permaneceram. "Por favor, não se esqueçam deles", dizem. "Eles não têm nada e querem ser evacuados, por favor os ajudem." "Eles precisam de remédios, alimentos, cobertores..." "Eles estão retirando neve suja das ruas para derreter e beber, não têm água" "O que quer que vocês possam dar a eles será uma bênção."

A distribuição é interrompida de repente. Uma das voluntárias que nos ajudam hoje acaba de receber uma ligação de um vizinho. A voluntária abandonou Donetsk no final do verão passado, quando sua casa foi danificada por um foguete. A casa foi atingida de novo, e os bombeiros não puderam apagar o incêndio devido ao bombardeio. As chamas a destruíram.

Eu encontro a voluntária chorando atrás dos kits de higiene. Tento confortá-la, mas os meses de vida no exílio e na precariedade falam mais alto e ela chora, copiosamente, por vários minutos. "Talvez eu não tenha mais um passado, nem lugar algum para voltar. Mas ainda posso ajudar os outros, e isso é o que farei." Corajosamente, lenço na mão, ela volta ao balcão de registros.

Leia este artigo em ucraniano – Моменти відчаю у Святогорську