“Ela foi enterrada e está em paz.”

“Ela foi enterrada e está em paz.”

Especialista forense do CICV revive experiência durante os piores ciclones que atingiram a África e o hemisfério sul.
Artigo 13 março 2020 Moçambique África do Sul

Já passou um ano desde que o ciclone Idai tocou terra em Moçambique, Zimbábue e Malaui. O ciclone, que afetou mais de três milhões de pessoas, foi seguido por um segundo um mês depois, o ciclone Kenneth.

Um dos primeiros socorristas no terreno após os ciclones foi o especialista forense do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), Stephen Fonseca. A equipe do CICV no sul da África recentemente conversou com ele sobre a sua experiência quando chegou a Moçambique.

Especialista forense do CICV, Stephen Fonseca. Fotos: Khatija Nxedlana
Especialista forense do CICV, Stephen Fonseca. Fotos: Khatija Nxedlana

Pergunta: Como era o terreno após o ciclone Idai?

Stephen: Era um caos. Quanfo chegamos ao lugar,  tivemos que rapidamente identificar a hierarquia da resposta ao desastre. Inundação é sempre um desafio em termos de logística porque nterrompe estradas. Levar alimentos, medicação e mecanismos de apoio vé difícil. No nosso caso, era preciso ter acesso a comunidades afetadas para começar a trabalhar no manejo digno e apropriado dos mortos.

Difícil expressar a hospitalidade que as comunidades locais nos mostraram. Os agricultores nos aceitaram, viram a relevância do nosso trabalho e, em alguns casos, saíram e recolheram dados para nós.

A devastação causada pelo ciclone Idai destruiu estradas, deixando as pessoas isoladas e sem acesso a alimentos básicos, remédios e mecanismos de apoio vital. O acesso às comunidades afetadas se tornou um desafio cada vez maior. Foto: Amilton Neves / CICV
A devastação causada pelo ciclone Idai destruiu estradas, deixando as pessoas isoladas e sem acesso a alimentos básicos, remédios e mecanismos de apoio vital. O acesso às comunidades afetadas se tornou um desafio cada vez maior. Foto: Amilton Neves / CICV

Pergunta: Qual é o papel do especialista forense durante um desastre natural, como o ciclone Idai?

Stephen: O nosso foco é resolver a questão das pessoas desaparecidas e trazer dignidade aos mortos. Trabalhamos para implementar sistemas que acomodam as informações que são coletadas em meio a todo caos. Esses cadáveres são pessoas. Eles têm o direito a serem tratados com dignidade, terem uma identidade e serem reconectados com as suas famílias.

Também nos reunimos com alguns líderes comunitários e autoridades locais para oferecer orientação e apoio com base na nossa experiência.

Amélia Joaquim (esq.), Rosita (centro-esq.) e Fátima Mequissenne (dir.) prestam uma homenagem às sepulturas dos seus entes queridos, a uns poucos quilômetros do vilarejo de Matarara, na região centro-oeste de Moçambique. Alguns dos corpos dos seus entes queridos foram localizados, envolvidos em sacos mortuários e enterrados de maneira adequada em lugares para sepultamentos coletivos. Amélia perdeu o pai, Rosita perdeu os três filhos pequenos e a mãe, e Fátima perdeu a filha. Foto: Miora Rajaonary / Everyday Africa / CICV
Amélia Joaquim (esq.), Rosita (centro-esq.) e Fátima Mequissenne (dir.) prestam uma homenagem às sepulturas dos seus entes queridos, a uns poucos quilômetros do vilarejo de Matarara, na região centro-oeste de Moçambique. Alguns dos corpos dos seus entes queridos foram localizados, envolvidos em sacos mortuários e enterrados de maneira adequada em lugares para sepultamentos coletivos. Amélia perdeu o pai, Rosita perdeu os três filhos pequenos e a mãe, e Fátima perdeu a filha. Foto: Miora Rajaonary / Everyday Africa / CICV

Pergunta: Como você descreveria um dia normal quando você estava no terreno?

Stephen: Os desastres vêm com várias circunstâncias ambientais imprevisíveis. É diferente do que encontramos em um conflito. O meu dia começava bem cedo com a mente voltada para encontrar cadáveres. Estávamos acompanhados por um representante da autoridade nacional e juntos nos reuníamos com líderes comunitários antes de fazer longas caminhadas em busca dos corpos.

Encontrar corpos em situações de inundação foi extremamente difícil porque o ambiente era inóspito. Era uma área afetada pela malária e tínhamos que caminhar muitos quilômetros na lama, o que era muito cansativo. Andar na lama é como andar no cimento, que tenta chupar as nossas botas e a cada passo que damos juntamos mais lama e os nossos pés ficam mais pesados.

Encontrávamos corpos ou partes de corpos, como ossos. Qualquer coisa que encontrássemos era importante porque representava uma pessoa e talvez era tudo o que a família receberia de volta. Depois a recuperação estava afetada pelas complicadas condições. Havia áreas infestadas de crocodilos e, portanto, tínhamos muito cuidado. Também vimos pegadas de hipopótamos e estávamos preocupados pela existência de cobras.

As recuperações são difíceis. E quando um corpo é recuperado na frente de familiares, deve ser feito com uma dignidade e um respeito incríveis, sobretudo, nos casos dos corpos que já começaram o processo de decomposição e se despedaçam na água. Às vezes não é possível recuperar um corpo. Por exemplo, se o cadáver está em uma árvore e as condições são muito traiçoeiras. Também havia momentos em que não podíamos carregar os corpos de volta para o ponto central e, em vez disso, tínhamos que enterrá-los e marcar os lugares para que as famílias possam, finalmente, fechar esse ciclo.

"Encontrar corpos em situações de inundação foi extremamente difícil porque o ambiente era inóspito", afirmou o especialista forense do CICV, Stephen Fonseca. Foto: Khatija Nxedlana
"Encontrar corpos em situações de inundação foi extremamente difícil porque o ambiente era inóspito", afirmou o especialista forense do CICV, Stephen Fonseca. Foto: Khatija Nxedlana

Pergunta: Na sua opinião, a área forense deveria ser incluída como parte de uma reposta mais ampla?

Stephen: Quando pensamos em desastres, qual é o pior que pode acontecer? A morte. A morte ou o desaparecimento de entes queridos. Todo o resto pode ser substituído. Como atores humanitários, preservar a vida é sempre o aspecto mais importante, mas não podemos nunca perder de vista o fato de que, quando a poeira baixa, as famílias querem saber onde estão os seus entes queridos. E mesmo se essas pessoas estão mortas, as suas famílias têm o direito de saber onde estão.

A área forense não deveria nunca ser excluída porque não somos distraídos por outros elementos de resposta importantes. Valorizamos totalmente a preservação da vida, mas quando alguém desaparece, a conexão entre o corpo e a família pode levar anos ou décadas. Precisamos trabalhar rápido para garantir que a maior quantidade de informações seja recolhida para que as famílias tenham as melhores chances de um dia encontrar esse cadáver. Em muitos desastres, é a perda de vida e as famílias que estão buscando os seus entes queridos que continuam muito depois que tudo foi restaurado.

Amélia Joaquim em frente à sepultura do seu pai, Mário, que morreu em março de 2019, quando o ciclone tropical Idai tocou terra na região central de Moçambique. Foto: Miora Rajaonary / Everyday Africa / CICV
Amélia Joaquim em frente à sepultura do seu pai, Mário, que morreu em março de 2019, quando o ciclone tropical Idai tocou terra na região central de Moçambique. Foto: Miora Rajaonary / Everyday Africa / CICV

Pergunta: Você pode nos contar uma lembrança marcante do trágico desastre do ano passado?

Stephen: Houve um caso em Moçambique quando a comunidade caminhou conosco pela beira do rio, onde as margens estavam destruídas, causando a inundação dos campos e a destruição de comunidades. A enchente foi tão forte e tão alta que uma criança foi alçada uns 15 ou 20 metros o seu corpo ficou pendurado de cabeça para baixo, desnudo, em uma árvore.

A comunidade que nos levou até lá esperava poder recuperar o corpo dessa criança que tinha idade entre 6 e 10 anos. Obviamente, a segurança vem em primeiro lugar nessas situações e não queríamos causar nenhum ferimento ou possível morte durante a recuperação dos restos mortais. O rio próximo à árvore era muito profundo e sabíamos que havia crocodilos. Também há muitas cobras que se escondiam perto da árvore devido à enchente.

A decisão nesse dia foi que era muito perigoso e tivemos que deixar o corpo da criança pendurado na árvore. Isso ia contra os meus valores. Fundamentamos a nossa carreira na dignidade e no profissionalismo do nosso enfoque e estar ciente do estresse que isso causa à comunidade que continuaria vendo o corpo dessa criança na árvore foi realmente difícil de esquecer.

Felizmente, a comunidade nos buscou poucos dias depois e estavam preparados para tomar as medidas necessárias para garantir que o caminho até a árvore fosse mais acessível. Espantaram os crocodilos com canoas e, apesar do medo das cobras no bosque, conseguimos recuperar o corpo da criança e descê-la com cordas. Caso o corpo caísse na água, as pessoas nas canoas poderiam recuperá-lo rapidamente.

Pudemos enterrá-la e marcar a sua sepultura. Para mim, foi um grande alívio, porque não podia me ver indo embora de Moçambique com o corpo daquela criança ainda pendurado na árvore e que ficaria ali durante semanas até terminar a sua decomposição.

Ela foi enterrada e está em paz. E a sua família tem um lugar aonde ir para visitá-la.