"Não podemos ver a violência sob um só ponto de vista" - Entrevista com Cecília Elia

28 maio 2018
"Não podemos ver a violência sob um só ponto de vista" - Entrevista com Cecília Elia

Foto: Marizilda Cruppe

O CICV iniciou a implementação da metodologia Acesso Mais Seguro (AMS) em Fortaleza (CE). Durante o primeiro treinamento, vários profissionais de serviços públicos essenciais foram capacitados de forma a reduzir as consequências da exposição das equipes e da população à violência armada.
Cecília Elia é assessora técnica da Coordenadoria de Juventude de Fortaleza. Ela participou do treinamento e nos deu esta entrevista.

A partir do atendimento à juventude que vocês realizam, qual a importância do curso nesse dia a dia?

Fortaleza está vivendo uma violência crescente, é tão cotidiano que, muitas vezes, a gente nem percebe mais alguns sinais. Então, a primeira parte do curso foi muito boa, porque foi essa percepção de que a violência realmente está dentro do nosso equipamento. Outro ponto: não podemos ver a violência só com um olhar, um ponto de vista. É uma situação tão complexa que são necessários vários olhares diferentes. O bom é que vamos enfrentar a violência pelo ponto de vista de várias secretarias.

O que vocês enfrentam hoje dentro dos equipamentos voltados para a juventude que vocês acreditam que vai ser minimizado pelo curso?

O maior problema é a impossibilidade de jovens acessarem os Cucas devido à violência. Então, a grande melhoria é poder ter uma capacidade maior de acessos. A gente quer oferecer um espaço seguro onde os jovens possam fazer atividade ou, simplesmente, entrar, sentar para conversar com outro jovem com a segurança de que não vai acontecer nada de perigoso. Criar o protocolo [metodologia AMS] também é uma segurança maior para os jovens, assegurar um lugar onde eles podem se sentir mais protegidos.

E essa segurança acabando chegando ao entorno dos equipamentos também, não é?!

A ideia é que não se torne um projeto só local, mas no território. A ideia de várias secretarias é pensar junto o que se pode fazer, não só no equipamento, mas também fora para prevenir a violência. Fazer alguma atividade e projeto para prevenir a violência na comunidade.

Hoje, um terço da população de Fortaleza está na idade de atendimento dos Cucas [de 15 a 29 anos]. Só no mês passado foram 30 mil atendimentos. Há uma demanda e uma busca grande pelos serviços oferecidos pelos Cucas.

Sim! E você vê que há tempos em que esse número baixa muito porque tem o período em que os conflitos territoriais aumentam, então, tem esse problema de acesso. Não há limitações para entrar, mas há regras que eles devem respeitar. É sempre posto para eles como um diálogo, não como um confronto agressivo para que eles entendam que existe essa regra e que eles não devem ter alguns comportamentos lá dentro.

Então, o CICV chega em um momento necessário para a cidade, principalmente, do ponto de vista da juventude.

Com certeza. O risco é dizer que a violência é um problema da juventude. Não, não é. A violência é consequência de muitos fatores, muitos. Agora, a juventude, realmente, tem sofrido muito com o aumento dessa violência.