Moçambique: violência armada agrava o sofrimento após o ciclone

04 dezembro 2019
Moçambique: violência armada agrava o sofrimento após o ciclone
Albertina Clemente está em frente das ruínas da sua casa, destruída pelo ciclone em Macomia, na província de Cabo Delgado, norte de Moçambique. Ataques a vilarejos têm sido recorrentes em Cabo Delgado desde 2017. Foto: Crystal Wells/CICV

Pretória/Genebra (CICV): A violência armada na província de Cabo Delgado, norte de Moçambique, obriga muitas pessoas a deixarem as suas casas, destruindo povoados e centros de saúde e dificultando a recuperação das famílias após o ciclone Kenneth, que atingiu a região em abril de 2019.

Ataques contra os moçambicanos são comuns em Cabo Delgado desde 2017. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) está preocupado com o impacto da violência armada sobre os deslocados e as comunidades que os recebem, caso a situação continue.

"As pessoas em Cabo Delgado sofrem com dois desastres: um ciclone, que arrasou casas e cultivos no início do ano, e a violência armada", afirma Patricia Danzi, diretora regional do CICV para a África. "As pessoas têm sofrido dois anos de ataques contra os seus povoados. Muitas tiveram que deixar as casas e os pertences para trás."

Os últimos dois anos deixaram centenas de pessoas feridas e mortas, casas incendiadas e bens saqueados. O acesso seguro às comunidades afetadas é um desafio para organizações humanitárias como o CICV, o que torna difícil dimensionar a escala das necessidades.

"A comunidade humanitária tem problemas de acesso a todas as áreas da província", diz Danzi. "A violência armada impede que nós e outras organizações possamos ir qualquer lugar e a qualquer hora. O mesmo acontece com as pessoas. Se não se sentirem seguras para ir aos lugares onde têm acesso aos serviços básicos, elas não irão. O número real de afetados ainda é desconhecido."

Mais pessoas buscam refúgio na segurança relativa de cidades maiores, como Macomia, aumentando a pressão sobre recursos já escassos. A maioria dos deslocados pela violência armada vive com famílias locais, que dividem as suas casas e recursos de forma generosa. Outros dormem em qualquer espaço que encontram, como salas de aula vazias.

"Eu era um comerciante e fazia o meu negócio", diz Maquela Salimane, que fugiu do seu povoado com a mulher e os quatro filhos e hoje mora com outra família em Macomia. "Mas quando eles entraram, queimaram a minha banca com todos os meus bens ali na banca. Assim como vocês me veem... a única roupa que uso é esta mesma."

A violência armada também afeta a capacidade das pessoas de sustentar as famílias. Agricultores abandonam as suas fazendas ao redor de cidades maiores, como Macomia, com medo de serem atacados. Eles já haviam perdido a colheita anterior por causa do ciclone Kenneth, que deixou muitos moradores quase sem ter o que comer e limitou as opções de subsistência.

"Os ataques são frequentes. Vivemos com medo. Não podemos dormir", diz Albertina Clemente, que perdeu a casa com o ciclone Kenneth. "Ontem mesmo escutamos disparos, e alguns de nós fugiram para dormir na mata."

O CICV trabalha em Cabo Delgado desde 2018. Em parceria com a Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, distribuímos sementes, ferramentas agrícolas e outros artigos às famílias após o ciclone Kenneth. Reconstruímos a maternidade de Macomia, atingida pela tempestade, e estamos reparando o sistema de abastecimento de água local. Mas essa é apenas uma fração das verdadeiras necessidades.

"As pessoas sofrem o duplo impacto da violência armada e do ciclone, que devastou a província no início do ano, destruindo grande parte dos bens das pessoas", afirma Danzi. "Isto as sobrecarregou ainda mais. Têm que reconstruir as suas vidas duas vezes."


Mais informações:
Tendayi Sengwe, CICV Pretória, +27 66 476 4446
Crystal Wells, CICV Nairóbi (inglês), +254 716 897 265