Nigéria: a viagem de duas horas que durou 780 dias

30 janeiro 2017
Nigéria: a viagem de duas horas que durou 780 dias
Ameena foi separada da família há dois anos, quando a violência chegou à cidade de Damaturu, na Nigéria. CC BY-NC-ND / ICRC / Hicham Rizkallah

Depois de uma noite sem dormir por causa dos rumores de que os confrontos se aproximam à cidade de Damaturu, Aisha está trançando os cabelos de seu primeiro cliente do dia. Mas logo o ruído se intensifica, indicando que os enfrentamentos estão cada vez mais perto. Até que finalmente Aisha e outros moradores da rua Bukka Bukway (Sete Cabanas) decidem fugir.

Quando está prestes a deixar a cidade, porém, Aisha percebe um pequeno movimento ao seu lado. É Ameena, a filha de quatro anos de uma vizinha. Aisha rapidamente procura pelos pais da criança, mas eles já não estão lá.

Com os confrontos cada vez mais perto, Aisha não pode deixar a menina para trás, sozinha. Então carrega a pequena Ameena, envolve-a em sua cintura e pega um ônibus, que as leva até Bajoga, no estado de Gombe, onde seu marido mora.

Enquanto isso, os pais de Ameena, Amadou e Hansatu, procuram desesperadamente pela filha em sua casa. Ela havia saído cedo naquele dia para brincar com os amigos. Agora, seus pais enfrentam uma das decisões mais difíceis de suas vidas: abandonar Bukka Bukway com apenas três dos quatro filhos. Com as três crianças nas costas, e sem Ameena, eles vão embora. Após vários quilômetros, encontram um carro e alguém disposto a levá-los em segurança.

Dois anos depois... 18 de janeiro de 2017. Aisha passa outra noite sem dormir. Desta vez, ela está ansiosa porque no dia seguinte a pequena Ameena, agora com seis anos, será devolvida a sua família. Durante sua permanência em Gombe, Aisha realizou um pedido de busca da família de Ameena à Cruz Vermelha. Após 780 dias de separação, a equipe de busca da organização localizou os pais biológicos da menina. Eles moravam a apenas duas horas de distância de Damaturu. Ameena em breve se reunirá com os pais – e Aisha perderá a filha adotiva. 

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Aisha e Ameena esperando o veículo do CICV que reunirá Aisha com a família após dois anos de separação. CC BY-NC-ND / ICRC / Hicham Rizkallah

Ameena está pronta quando o CICV chega, após aguardar pacientemente na porta desde cedo com o seu vestido rosa combinando com o aro dos óculos escuros.

Aisha está triste porque Ameena sairá de casa, mas, quando a equipe de busca do CICV a convida para participar da viagem, ela se sente aliviada e feliz.

Após mais de duas horas em uma estrada acidentada no deserto, o grupo chega à casa da família, na aldeia de Koriyel, no estado de Yobe. Ao ver Ameena saindo do carro, seu pai corre para abraçá-la. Ambas as mães – a biológica e a adotiva – choram quando os irmãos de Ameena se reúnem ao redor dela, felizes e emocionados por ver de novo a querida irmã depois de dois anos de uma angustiante separação.

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Amigos se juntam ao redor do veículo do CICV para se despedir de Ameena no momento em que ela parte para se reencontrar com a família. CC BY-NC-ND / ICRC / Hicham Rizkallah

Quando chega o momento de Aisha voltar para casa, Ameena começa a chorar. Uma vez que o carro desaparece na poeira, no entanto, ela encara sua nova vida: dormir novamente em casa com os irmãos e ir com eles à escola do povoado.

Aisha não tem essas distrações. A parte mais difícil da viagem de volta é quando o carro começa a se afastar, deixando Ameena para trás. Aisha não pode conter as lágrimas durante todo o trajeto de volta a Damaturu.

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Ameena senta-se ao lado de sua mãe adotiva e dos demais membros da família após dois anos de separação. CC BY-NC-ND / ICRC / Hicham Rizkallah

Ameena tem muita sorte de poder retornar à família. Desde 2014, o CICV e as Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha na região do Lago Chade (Nigéria, Níger, Chade e Camarões) registraram 1.214 crianças como 'desacompanhadas' ou 'separadas' em decorrência do conflito no noroeste da Nigéria. Algumas delas são como Ameena, vivendo a uma distância relativamente pequena de seus pais, mas sem saber disso.

O CICV e as Sociedades Nacionais continuam trabalhando incansavelmente em toda a Nigéria para identificar, buscar e reunir crianças que tenham sido separadas de suas famílias devido ao conflito no país.  

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