Peru: “Enfrentamos riscos e perigos”, depoimento de um arqueólogo forense

22 janeiro 2016
Peru: “Enfrentamos riscos e perigos”, depoimento de um arqueólogo forense
Alturas de Ayacucho, caminho a Chungui. Os membros da Equipe Forense Especializada do Instituto Médico-Legal e familiares recorrem lugares inóspitos para chegar aos locais em que há pessoas enterradas. ©ABD/Rodrigo

Narbo Peralta Pita (39) é arqueólogo forense, integrante da Equipe Forense Especializada (EFE) do Instituto Médico-Legal (IML). Há cinco anos faz parte desta equipe de 17 profissionais que se encarrega de realizar a busca dos restos mortais das pessoas desaparecidas: recuperação, análise, identificação e restituição dos restos mortais aos familiares para que possam obter respostas e enterrá-los dignamente.

Poucas pessoas sabem que, para realizar as buscas, os peritos devem percorrer caminhos difíceis, muitas vezes a pé, subindo e descendo montanhas de até 4,5 mil metros acima do nível do mar e enfrentando riscos e perigos.

Caminham muito, inclusive três dias para chegar aos locais de enterro onde têm de exumar os restos mortais das pessoas desaparecidas durante a violência armada que o Peru vivenciou entre os anos 1980 e 2000. Cada vez que saem para uma atividade, os peritos e fiscais estão expostos a acidentes, desidratação e até mesmo picadas de cobras.


Narbo Peralta, arqueólogo forense (de colete) em uma pausa antes de continuar a busca. © EFE

"O trabalho de campo é árduo e vimos que precisávamos de um treinamento para o atendimento médico de emergência. Vamos a lugares onde não há estradas, nem meios de comunicação. Já houve emergências com a nossa equipe e não sabíamos como atendê-las", contou Peralta.

"Houve o caso de um colega, que parecia muito bem de saúde, esportista e preparado para resistir à atividade. Depois de várias horas caminhando pela trilha agreste, o clima úmido e quente o desestabilizou. Ele começou a ter convulsões e a falar coisas sem sentido, enquanto que nós só lhe dávamos ar e tirávamos as formigas que subiam pelo seu corpo. Nesse momento, não sabíamos o que estava acontecendo", continuou narrando Peralta.


Familiares de pessoas desaparecidas indicam o possível local de enterro. © EFE

A Filial Provincial de Ayacucho da Cruz Vermelha Peruana e o CICV atenderam a essa carência e organizaram o primeiro treinamento com o "Curso de Primeiros Socorros, Reanimação Cardiopulmonar e Desfibrilação Externa Automática", ministrado pela Cruz Vermelha Peruana no dia 17 de novembro de 2015.

"Com o curso, recebemos as primeiras orientações para estabilizar um ferido e identificar alguns sintomas até a chegada da ajuda médica. Mas nem sempre é possível que a ajuda chegue e, por isso, acredito que devemos continuar reforçando os conhecimentos e estar preparados cada vez que tivermos que sair. Temos que estar preparados para tudo", concluiu o arqueólogo forense.

 

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