Sudão do Sul: um ano após o acordo de paz, violência e necessidades humanitárias não diminuem

11 setembro 2019
Sudão do Sul: um ano após o acordo de paz, violência e necessidades humanitárias não diminuem
Florian Bastian Seriex, ICRC

Declaração de James Reynolds, chefe da delegação do CICV no país, sobre a situação vivida um ano depois da assinatura do Acordo Revitalizado para a Resolução do Conflito no Sudão do Sul

Juba (CICV) – Um ano após a assinatura do acordo de paz, a violência ainda é generalizada no Sudão do Sul, onde os confrontos entre as comunidades ameaçam a vida e a frágil estabilidade do país.

Equipes de cirurgiões do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) continuam atendendo um grande número de pacientes feridos por armas de fogo, enquanto as necessidades da maioria das comunidades afetadas permanecem altas. É preciso redobrar os esforços para alcançar uma paz duradoura.

O número de feridos pela violência que deram entrada em nossas unidades cirúrgicas aumentou desde a assinatura do acordo de paz. De outubro de 2017 a junho de 2018, foram internados 526 pacientes, a maioria com feridas de bala. Um ano depois, tivemos 688 pacientes no mesmo período (outubro de 2018 a junho de 2019), um aumento de quase 25%. Em uma única semana de abril, o CICV evacuou por via aérea 39 pessoas com feridas de bala ao hospital que apoiamos, o que nos obrigou a aumentar em um terço o número de leitos na unidade para atender às necessidades.

A violência também atinge os centros de saúde. Equipes do CICV foram informadas sobre 24 incidentes que envolveram saques às instalações ou ameaças aos funcionários desde a assinatura do acordo de paz. É possível que esses dados reflitam apenas uma parte dos incidentes contra os estabelecimentos e os profissionais de saúde. Em um país onde tão poucos centros médicos funcionam após décadas de guerra e subdesenvolvimento, o fechamento de uma única clínica significa que comunidades inteiras ficarão sem assistência, tornando mortais doenças que poderiam ser tratáveis ou evitáveis.

No último ano também houve poucos avanços para a maioria da população. Mais pessoas enfrentam insegurança alimentar hoje do que em qualquer momento desde que começou o conflito armado entre as forças do governo e a oposição, há mais de cinco anos. Os sul-sudaneses estão vivendo no limbo, e os recentes confrontos em algumas partes do país, como Equatória, continuam a deslocar milhares de pessoas – que não poderão colher as suas safras e dependerão de ajuda humanitária.

Décadas de conflito separaram as famílias. O CICV busca mais de 4,2 mil sul-sudaneses cujos familiares foram dados como desaparecidos. Tragicamente, como há cerca de quatro milhões de habitantes deslocados dentro do país e ao longo das fronteiras, o número de pessoas que não sabem onde estão os seus entes queridos é provavelmente muito maior. Saber a sorte desses familiares daria aos sul-sudaneses a oportunidade de seguir em frente.

O CICV trabalha no Sudão do Sul desde a independência, em 2011. Também atendemos às necessidades dos sul-sudaneses durante a longa guerra civil do Sudão. Podemos dizer, por experiência própria, que é impossível exagerar o impacto que as décadas de guerra, violência e incerteza causaram às comunidades.

Esperamos que o acordo de paz se mantenha. O retorno ao conflito em larga escala no Sudão do Sul poderia significar que os civis sejam expostos de novo a ataques deliberados e deslocamentos, apesar de serem protegidos pelo direito internacional.

Mas mesmo que as condições atuais prossigam, os níveis de violência entre as comunidades no Sudão do Sul, que têm sido possíveis graças ao fácil acesso às armas no país, continuarão ameaçando a paz e a estabilidade que os sul-sudaneses necessitam para se recuperar e reconstruir um país que, em grande medida, só conheceu a guerra.

Mais informações:
Florian Bastian Seriex, CICV Juba, Delegado de Comunicação, tel: +211 912 360 038, fseriex@icrc.org
Crystal Wells, CICV Nairóbi, Delegada de Comunicação, tel: +254716897265, cwells@icrc.org
Aurélie Lachant, CICV Genebra, Coordenadora de Comunicação, +41227302271, alachant@icrc.org