No dia a dia, o programa Acesso começa a ser aplicado antes mesmo da rotina começar. Nas primeiras horas da manhã, os profissionais da saúde e da educação analisam o que acontece ao redor das unidades em que trabalham: se há ruas bloqueadas, confrontos, movimentações ou sinais que possam representar risco. A partir dessa leitura do território, decidem como o dia irá transcorrer. Se as condições permitem, escolas e postos de saúde seguem funcionando. Quando a violência armada ameaça o acesso e a permanência de alunos, pacientes e profissionais nos serviços essenciais, entram em ação protocolos de gestão do risco, para proteger e minimizar a exposição e as consequências para os profissionais e comunidades.
“Sem o Acesso, seria impossível operar nesse contexto e manter as unidades de saúde em funcionamento", afirmou Danielle Brandão, Assessora da Superintendência de Atenção Primária da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, durante uma visita conjunta com o CICV ao complexo da Maré, no Rio de Janeiro.
Criado pelo CICV no Rio de Janeiro em 2009, o programa Acesso busca garantir a continuidade de serviços essenciais, como saúde e educação, em territórios afetados pela violência armada. A iniciativa reúne ferramentas e protocolos que auxiliam instituições públicas a avaliar riscos, adaptar procedimentos e manter o atendimento à população mesmo em lugares onde a violência armada impacta a vida cotidiana.
Desde 2016, o Acesso passou a operar em seu formato atual, com a metodologia sendo aplicada diretamente pelos profissionais que atuam nos territórios. Ao longo dos anos, a iniciativa foi incorporada pelas autoridades locais em diferentes estados do país e hoje é implementada de forma autônoma pelas instituições parceiras.
Atualmente, cerca de 2.478 equipamentos públicos utilizam o programa em oito municípios brasileiros — São Paulo, Rio de Janeiro, Duque de Caxias, Porto Alegre, Fortaleza, Salvador, Vila Velha e Florianópolis. O CICV, por sua vez, presta apoio técnico às instituições parceiras e contribui para o fortalecimento de suas capacidades de atuação nesses contextos.
“A adoção da metodologia do Acesso proporciona a organização dos profissionais, a previsibilidade de ações no momento da crise, o embasamento e a autonomia para a tomada de decisões, possibilitando assim a atuação nos territórios”, afirma a gerente de Segurança Escolar da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, Renata Costa de Oliveira.
Os números refletem a capilaridade da iniciativa. Entre 2015 e 2026, mais de 62 mil profissionais de serviços essenciais receberam formação na metodologia do programa, dos quais quase 28 mil foram treinados em Comportamentos Mais Seguros (CMS) na modalidade de ensino a distância (EaD).
Apesar dos avanços e da consolidação do programa, o CICV reforça a necessidade de fortalecer estratégias duradouras de governança e de sustentabilidade do programa nas instituições parceiras. Nesse contexto, o CICV promove encontros da Rede Acesso para fomentar a troca de boas práticas diante dos desafios e avanços na implementação local do programa, contribuindo para uma atuação cada vez mais autônoma e sustentável.
De acordo com a coordenadora do Programa Acesso, Giselle Fernandes Corrêa, a metodologia foi construída a partir de práticas do CICV adaptadas à realidade brasileira. “O Acesso oferece conhecimentos como análise de contexto, gestão de risco, gestão de crise e também gestão do estresse, permitindo que os profissionais dos serviços e os gestores ampliem suas capacidades institucionais para operar de forma mais segura em áreas afetadas por confrontos entre atores armados e outras situações de risco”, afirma a coordenadora do Acesso.
Durante visita ao Brasil, em abril, o Diretor-Geral do CICV, Pierre Krahenbuhl, esteve em uma escola e em uma unidade de saúde no Rio de Janeiro, onde conversou com profissionais que relataram sentir-se mais seguros após participarem dos treinamentos do programa. “Para esses profissionais, não é apenas sair de casa e ir ao trabalho, é garantir a segurança dos estudantes ou pacientes e a sua própria segurança. E que todos estejam seguros se houver alguma operação policial ou confronto entre grupos armados. A metodologia do Acesso possibilita que eles tomem a melhor decisão”, afirmou.
Segundo o chefe de Operações do CICV para Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, Guela Sekhniachvili, que participou do XI Encontro Nacional da Rede Acesso, é admirável o grau de apropriação do programa pelos parceiros. “Estamos dispostos a adaptá-lo e, por isso, estamos abertos a ouvir as opiniões dos nossos facilitadores e pontos focais dos municípios sobre suas necessidades e lacunas. Todo contexto é diferente, então precisamos conhecer os desafios que cada município tem para que possamos melhorar sempre”, ressaltou.