RD do Congo: CICV reúne 152 ex-crianças-soldados com as suas famílias

09 janeiro 2015
RD do Congo: CICV reúne 152 ex-crianças-soldados com as suas famílias
RD Congo. Um grupo de ex-crianças-soldados embarca em avião do CICV na base militar de Kamina. Elas serão levadas para casa, no nordeste do país. CC BY-NC-ND/CICV/Augustine Nziavake

Famílias que vivem nas províncias orientais de Kivu do Norte, Kivu do Sul e Orientale devem se reencontrar com as suas crianças hoje depois de meses ou até mesmo anos de separação. Os 147 meninos e 5 meninas pertenciam a forças armadas ou grupos armados até pouco tempo.

"O recrutamento voluntário ou forçado de crianças ainda é um problema generalizado neste país", explicou Tanja Cisse, que administra as atividades de proteção aos civis do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV). "Esse recrutamento é proibido tanto pela legislação nacional como pela internacional. Esta é a mensagem que devemos difundir".

Em alguns casos, as crianças recrutadas à força, mas é muito frequente que elas entrem voluntariamente para grupos armados, seja porque esta é uma forma de sobrevivência ou para se vingarem ou defender a sua comunidade. Elas podem ser enviadas para combater nas linhas de frente ou servem de cozinheiros, carregadores, mensageiros, olheiros, mascotes, espiões ou escravos sexuais (em particular as meninas, que muitas vezes são obrigadas a se casar).

Esse estilo de vida nômade e violento tem um preço alto: ferimentos (que com frequência levam a deficiências físicas graves); gestações; falta de acesso à educação e à assistência à saúde; estresse psicológico; detenção; e, em alguns casos, rejeição por parte da sua comunidade. "Voltar a ser criança ou adolescente pode ser muito difícil", comenta Cisse. "O CICV está pronto para prepará-las, ajudá-las a se instalar de novo no seio familiar e tentar assegurar que não voltem a ser recrutadas".

Em Kamina, uma cidade na província de Katango, no extremo sul do país, as 152 crianças estão sendo abrigadas em um centro administrado por uma instituição de caridade nacional, Apede. A equipe do CICV recolheu as informações necessárias para buscar as suas famílias e está trabalhando com as crianças no centro para prepará-las gradualmente para o retorno às suas comunidades.

Os jovens colaboradores realizam sessões de conscientização para incentivar as crianças a resistirem a qualquer tentativa de recrutá-las. Esta é uma importante parte da reintegração social. "Junto com membros da agência de proteção à criança, que administra este centro, o CICV passou dias conversando com as crianças, em grupos ou em encontros individuais", contou Marie-Geneviève Nightingale, a cargo do trabalho de proteção à criança do CICV no leste do país. "Usando brincadeiras, dança e discussões, incentivamos as crianças a pensarem sobre o que elas podem fazer para que o seu retorno à casa seja um sucesso e abordamos também os riscos de serem recrutadas de novo, seja de maneira voluntária ou à força".

Para buscar as famílias dessas crianças, a equipe do CICV – às vezes acompanhada de colaboradores da Sociedade Nacional da Cruz Vermelha – viajou longas distâncias de carro, moto, bicicleta ou a pé, quase sempre para os lugares mais remotos do país. Em julho e agosto de 2014, o CICV reuniu 99 crianças, antes associadas a forças armadas ou grupos armados, com as suas famílias como parte de um programa de desmobilização do governo. Foram organizados vários voos da base militar de Kamina para levar as crianças de volta às suas casas, no nordeste do país.

"Algumas famílias se recusaram a receber as crianças de volta", explicou Nightingale. "Elas temem que o comportamento delas não tenha mudado ou que elas sejam rejeitadas ou estigmatizadas pela comunidade por causa dos atos violentos que essas crianças cometeram no passado".

O CICV tenta trabalhar a questão da estigmatização. A organização promove reuniões nas aldeias afetadas onde todos podem discutir a questão e participar do longo processo de reabilitação das crianças e do retorno delas à vida civil. As brincadeiras e as sessões de treinamento concentradas nos riscos do recrutamento também acontecem em conjunto com o departamento juvenil da Cruz Vermelha local. Três meses após o retorno de uma criança à sua casa, uma equipe do CICV visita a família para se certificar de que tudo está correndo bem. Depois de uma consulta prévia com as famílias, as crianças – dependendo da idade que tenham – recebem material escolar ou meios para começar um pequeno negócio e, desta forma, criar laços com a comunidade.

Em 2014, na República Democrática do Congo, o CICV:

  • reuniu mais de 800 crianças com as suas famílias (incluindo quase 300 que estavam associadas a forças armadas ou grupos armados);
  • repatriou 30 crianças de outros países para serem reunidas com as suas famílias;
  • visitou, com a ajuda de voluntários da Cruz Vermelha, mais de 400 ex-crianças-soldados nas suas casas para se certificar de que tenham se instalado de volta no seio familiar e na vida em comunidade;
  • recolheu mais de 46 mil Mensagens Cruz Vermelha (mensagens breves, escritas à mão com notícias pessoais) e entregou quase 42 mil mensagens.

No final do ano, 576 crianças eram monitoradas pelo CICV enquanto aguardavam para se reencontrarem com as suas famílias. Elas moram em centros transitórios ou com famílias que as acolhem em diferentes partes do país.

Mais informações:
Patrick Megevand, CICV Kinshasa, tel: +243 81 700 85 36
Elodie Schindler, CICV Goma, tel: +243 81 700 77 86
Sylvie Pellet, CICV Bukavu, tel: +243 81 711 55 60
Jean-Yves Clémenzo, CICV Genebra, tel: +41 22 730 2271 ou +41 79 217 32 17

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