"Eles morrem sem serem notados". Crescente crise na área de saúde no Sudão do Sul.

30 setembro 2016
"Eles morrem sem serem notados". Crescente crise na área de saúde no Sudão do Sul.
Décadas de violência no Sudão do Sul destruíram a esperança de um sistema de saúde sólido. Para um paciente que precisa ir a um hospital em uma emergência, a falta de estradas é uma sentença de morte. CC BY-NC-ND / ICRC / Alyona Synenko

A clínica de Waat no Sudão do Sul está sobrecarregada, cobrindo até 70 mil pessoas, quase o dobro da sua capacidade. As chuvas sazonais impossibilitam que os feridos cheguem ao hospital mais próximo, que está a cinco horas de caminhada. Para a maioria dos pacientes, esta clínica é o único acesso que têm aos serviços de saúde.

A moça de 17 anos seria mãe de gêmeos. O primeiro filho de Nyandieng nasceu na modesta cabana de barro e palha da família. Porém, complicações impediram o nascimento do segundo filho. Para buscar ajuda, a família carregou a adolescente, ainda grávida, à clínica mais próxima - uma caminhada difícil de cinco horas.

Edward Dramwi, enfermeiro do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), ajudou no parto do segundo filho naquela noite em uma clínica modesta no povoado de Waat. Mas a criança nasceu morta. Além do trauma de perder um bebê, Nyandieng também perdeu muito sangue. Ela precisava de uma transfusão, um procedimento que estava muito além da capacidade da clínica.

Na manhã seguinte, a primeira coisa que Edward fez foi verificar o estado dela. Estava frágil, fraca e exausta. Os familiares secavam o suor do seu rosto e tentavam manter as moscas longe.

"Não podemos fazer mais nada por ela aqui. Deve ir a um hospital", disse Edward. Durante a época da seca, um carro a poderia ter levado. Agora, as chuvas impediriam o trajeto. "A estrada está completamente inundada. É impossível ir de carro", ele avisou a família.

Décadas de violência no Sudão do Sul destruíram a esperança de um sistema de saúde sólido. Para um paciente que precisa ir a um hospital em uma emergência, a falta de estradas é uma sentença de morte.

Para chegar ao hospital, a família teria que caminhar através de pântanos durante nove horas. Decidiram não fazê-lo. Duas horas depois Nyandieng morreu, e a família a levou, junto com o bebê que nasceu morto, para casa, onde o primeiro dos gêmeos terá que sobreviver sem a mãe.

"É muito doloroso ver os seus pacientes morrerem porque não há estradas e você não pode mandá-los para o hospital", contou Edward, com uma tristeza profunda no seu rosto normalmente sorridente e brilhante. "Algumas semanas atrás, chegou uma grávida à noite. O útero estava perfurado. A única coisa que podíamos fazer era consolá-la. Ela chorou toda a noite e morreu de manhã."

Medidas preventivas podem melhorar as chances de uma mãe ter um parto seguro, mas a falta de conscientização e o acesso difícil significam que um número limitado de mulheres conseguem ser assistidas. A clínica trabalha com parteiras tradicionais que tentam convencer as mulheres a irem até a clínica nas fases iniciais da gravidez para o controle pré-natal.

"Tentamos identificar cedo os casos de gravidez de alto risco e avisar as mulheres que se dirijam ao hospital antes do início do parto", explica Nyawech Sammuel, parteira assistente na clínica de Waat.

Mas mesmo esta abordagem tem limites. Equipamento médico avançados como ultra-som são extremamente raros. A capacidade dos profissionais de saúde de detectar anormalidades é limitada. "A cada três meses há, pelo menos, uma morte materna. No mínimo. Às vezes, há mais", afirmou a delegada de saúde do CICV, Patricia Maina.

conflict in South Sudan affects women and access to healthcare

Mesmo depois de as armas silenciarem, os efeitos de décadas de conflito no Sudão do Sul podem ser sentidos por milhares de pessoas que não têm acesso à assistência de saúde adequada. CC BY-NC-ND / CICV / Alyona Synenko

O CICV apoia a clínica de Waat para assegurar que as pessoas afetadas por conflitos tenham acesso aos serviços de saúde primária. Alguns estabelecimentos de saúde fecharam na região por falta de verbas, aumentando a pressão em Waat.

"Esta estrutura estava preparada para prestar atendimento a cerca de 45 mil pessoas, mas atualmente a sua cobertura é entre 60 mil e 70 mil, tendo somente dois atendentes clínicos. Muitos pacientes vêm até aqui de muito longe", acrescentou Patricia.

Todo o material médico é entregue em Waat de avião ou helicóptero, e, às vezes, os estoques acabam. Estes ficaram semanas sem reabastecer quando os combates eclodiram em Juba em julho. "Durante esse período, uma mãe trouxe o filho com uma leve pneumonia. Estávamos completamente sem antibióticos no estoque. Poucos dias depois, a pneumonia piorou e a criança morreu."

Encontrar profissionais capacitados é outro desafio. "Não posso tirar férias porque não há ninguém para me substituir", contou Nyawech. A maioria dos profissionais nunca recebeu nenhum treinamento formal, aprendendo, ao invés disso, enquanto trabalha. Muitas vidas dependem apenas da sua habilidade e dedicação. "Quando uma mulher está sangrando, tenho de usar a técnica correta para estacar o sangue. Caso contrário, ela morre", explicou Nyawech.

Dezenas de milhares de pessoas morreram nos combates desde o fim de 2013, embora ninguém saiba o número exato. O que é certo é que esse número desconhecido aumenta todos os dias, mesmo quando as armas estão silenciosas.
"Essas pessoas são as vítimas da guerra", disse Edward, apontando em direção dos pacientes na modesta clínica de saúde. "Mas eles morrem sem serem notados"

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