Iraque: pessoas com deficiência e deslocadas

30 setembro 2015
Iraque: pessoas com deficiência e deslocadas

Rusul tem sete anos e é de Ramadi. Está paralítica devido a uma cirurgia mal realizada logo após o seu nascimento. A intervenção, próxima à sua espinha, não conseguiu curar uma infecção cutânea grave e a deixou sem sensibilidade.

"É muito difícil movê-la para a esquerda ou para a direita", contou Abu Rusul, que adotou Rusul depois que a menina, ainda bebê, perdera os pais biológicos. Após a saída dos dois de um campo de deslocados improvisado em Amiriyat Al-Fallujah, ficou muito difícil para que Rusul recebesse reabilitação física ou outro tipo de tratamento. "Fiz o possível para proporcionar-lhe o tratamento que ela precisa, mas é muito caro", comentou Abu Rusul.

Oferta de ajuda por parte do CICV

A equipe do CICV conheceu Rusul durante uma visita de avaliação aos campos da área. Rusul não falava, mas os seus olhos transmitiam a dor que ela sentia no corpo. Apesar do silêncio por fora, por dentro havia um grito desesperado de ajuda.

"Fale alguma coisa", implorou Amro Ibrahim, membro do CICV que teve os primeiros contatos com Rusul, em Anbar. "Fale qualquer coisa!", tentou de novo, mas Rusul não emitia sequer uma palavra. Abu Rusul deu de ombros e indicou que a passividade de Rusul já vinha de longa data.

Algumas semanas depois, o CICV entregou uma cadeira de rodas para Rusul, na esperança de que isso fosse alegrá-la e também ajudaria o seu pai adotivo a leva-la de um lado para outro. Mais do que isso, o CICV ofereceu arcar com as despesas do tratamento de Rusul em um dos cinco melhores centros de reabilitação física que apoia, em Bagdá.

Uma epidemia de sofrimento em silêncio

Atualmente, existem dezenas de milhares de Rusuls em todo o Iraque. Elas vivem um sofrimento em silêncio dia após dia. Crianças cuja infância foi roubada pela guerra, políticas e pobreza. Elas não frequentam a escola, nem brincam na rua. Tampouco vestem roupas novas nos dias de festa. Não vivem em um ambiente seguro. São altamente vulneráveis à violência sexual. Não têm acesso à água potável. Não se alimentam de forma adequada e, portanto, não se desenvolvem por completo.

Desta forma, não surpreende que Rusul não diga nada. Quando uma criança é privada de tanto, por que ela deveria rir ou mesmo falar?

O campo de deslocados em Amiriyat Al-Fallujah, onde Rusul vive. / CC BY-NC-ND/CICV