As mulheres e a guerra

Os homens fazem guerras; as mulheres vivem as consequências. Pelo menos essa é percepção geral.
Artigo 11 outubro 2018

Ao mesmo que em vivem com essas consequências e reagem às mesmas, as mulheres, no entanto, dificilmente são vítimas passivas. Elas lamentam, lutam contra o sofrimento e muitas se veem obrigadas a se reinventar, abandonando uma antiga identidade e forjando uma nova, formada pela guerra.

Uma nova produção da National Geographic, com o apoio do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), apresenta uma mirada mais íntima sobre como as mulheres reagem e lidam com desestruturação que o conflito traz às famílias e à vida profissional delas.

Neste projeto, A Woman's War ("A guerra de uma mulher"), quebramos o estereotipo de "mulheres como vítimas" e analisamos os papéis múltiplos, complexos e, muitas vezes conflitivos, que as mulheres representam no conflito: combatentes, profissionais humanitárias, mães, filhas, trabalhadoras, líderes comunitárias e sobreviventes.

"Acredito que as mulheres são agentes da mudança. São as principais fontes de estabilidade em áreas afetadas por conflitos e mantêm unidas não somente as suas famílias, mas também as suas comunidades", afirma a diretora-adjunta de Operações do CICV, Mary Werntz. "A minha esperança é que todos nós, incluindo os profissionais humanitários, possamos ver as mulheres de maneira integral e não somente como vítimas de algo."

As vidas que o projeto A Woman's War documenta são diversas. O fotógrafo da National Geographic, Robin Hammond, visitou uma guerra que ele conhece bem – Iraque – assim como outras que raramente aparecem nas manchetes globais, como as das Filipinas ou do sul da Nigéria. As identidades continuam sendo formadas pela guerra, mesmo quando as armas se silenciam. Por isso, Hammond também foi ao Peru para ver as velhas cicatrizes que ainda não se curaram.

Trabalhar com gênero é um assunto complexo. Combina poder e privilégio, rituais da comunidade e expectativas. O conflito tende a piorar as desigualdades existentes. O que acontece quando o arrimo da família – quase sempre um homem – parte para a guerra ou é morto em decorrência da violência? Os papéis na sociedade mudam; as mulheres recebem uma oportunidade que não tinham antes.

"Para mim, em muitas situações de conflito, as mulheres são obrigadas a ficar a cargo da família", acrescentou Werntz. "As mulheres podem ter de assumir as áreas agrícolas, passar a fazer parte da força de trabalho e ter de cuidar da educação das crianças."

 

Com este novo projeto, a National Geographic e o CICV analisam as múltiplas identidades que as mulheres assumem através de uma série de retratos - parte nos seus contextos naturais, parte em estúdio. Cada retrato é único - fotografado contra um fundo importante para história da mulher em questão - é concebido para desafiar os rótulos simples que damos às mulheres na guerra e questionar o papel da fotografia de dar respostas singulares a questões complexas.

Fatima, 17 anos, Maiduguri, Nigéria.
Fatima, 17 anos, Maiduguri, Nigéria. Robin Hammond / National Geographic

A minha esperança é que no futuro possamos retornar à casa em paz.

Fatima, 17, mora com a irmã e a mãe em um campo de deslocados em Maiduguri, Nigéria. Quando ela tinha 15 anos, o seu vilarejo foi atacado. "Era de tarde, mais ou menos às 17h, quando as pessoas já tinham acabado de comer, ouvimos tiros. Lembro que tremia de medo. Sem que soubéssemos, o vilarejo tinha sido rodeado e estava sendo invadido.

Não havia lugar para escapar. Nós nos escondemos em um quarto e o som dos tiros parecia cada vez mais próximo. As balas perdidas entravam pelo teto da casa. Usamos colchões para nos proteger e gritávamos pedindo ajuda, mas sem resultado." Fatima contou que a maioria dos homens já tinham fugido. Elas foram mantidas dentro de um quarto durante uma semana, sem comida, antes de serem liberadas. Uma vez que saíram do quarto, as mulheres imediatamente se dispersaram.

Fatima foi para um lado e a sua mãe, para outro. Elas se esconderam na mata. Somente 18 meses depois voltaram a se encontrar.

Hozan Badie Sindi, 25 anos, Erbil, Iraque.
Hozan Badie Sindi, 25 anos, Erbil, Iraque. Robin Hammond / National Geographic

Ser mulher neste conflito significa ser resiliente.

A médica Hozan Badie Sindi, 25, no segundo ano de residência, posa em frente ao cobertor no quarto de hospital onde ela dorme quando está de plantão. Ela passou a maior parte da sua vida vivendo com guerras. O Hospital de Emergências de Erbil Ocidental, também conhecido como Hospital Rozhawa, recebeu centenas de feridos e casos de traumatismos causados pelo conflito em Mossul.

O CICV apoia o Hospital Rozhawa e outros, sobretudo, no tratamento de pessoas feridas no conflito. Erbil, Curdistão iraquiano.

"Sofri com as pessoas que viveram em meio aos conflitos. Mas não quero simplesmente acompanhá-las na dor, quero fazer parar a dor, impedir sintam dor. Realmente quero fazer alguma coisa por elas, mas infelizmente não posso, às vezes simplesmente estão fora do nosso alcance. Posso lhes dizer que entendo um pouco o que estão enfrentando. Talvez, por ser mulher, tenho um pouco mais de tristeza na alma, mas é assim que as coisas são. Ser mulher neste conflito não se pode descrever em uma única palavra. É uma pessoa que se esforça muito para sobreviver e ajudar outros a sobreviverem. Basicamente, esta é a minha ideia. Ser mulher neste conflito significa ser resiliente. Trabalhar duro todos os dias, tentar neutralizar a situação que quero para a próxima geração para entender para entender para que este conflito não volte a acontecer nunca mais."

Dionisia Calderon, 54 anos, Ayacucho, Peru.
Dionisia Calderon, 54 anos, Ayacucho, Peru. Robin Hammond / National Geographic.

Fui uma vítima e depois virei uma lutadora.

Dionisia Calderon vende frutas e batatas no seu vilarejo natal de Morochucos, Ayacucho, Peru. Essa mulher de 54 anos enfrentou diversas perdas durante o conflito interno que trouxe violência e sofrimento à região. O seu primeiro marido desapareceu sem deixar rastro. O segundo foi raptado e duramente torturado. Finalmente, morreu em decorrência dos ferimentos. Recusando-se a viver em silêncio sobre as injustiças que ela e a sua família sofreram, passou a ser representante das mulheres que sofriam abuso sexual durante o conflito. "Eu me perguntava: 'Por que nasci mulher? Por que não nasci homem?' Nós, mulheres, passamos por tantas coisas, com os soldados e o Sendero Luminoso. Foi difícil suportar tanta violência. Fomos marginalizadas, criticadas pelo que tivemos que passar. Eu me sentia horrível. Devo a minha vida às mulheres que me disseram 'Você não é o que você pensa. Você não é o que as pessoas dizem que você é, porque elas não te conhecem. Você é uma mulher e uma batalhadora. E precisa continuar lutando. Precisa enfrentar essas coisas'. Fui uma vítima do conflito interno armado e agora me tornei uma mulher que luta pela justiça e pela verdade."

Eufemia Cullamat, 57 anos, Mindanao, Filipinas.
Eufemia Cullamat, 57 anos, Mindanao, Filipinas. Robin Hammond / National Geographic

Sou uma vítima e uma sobrevivente.

Eufemia Cullamat, agricultora, 57 anos, promove o fim das atividades de mineradoras nos territórios ancestrais em Surigao del Sur, província de Mindanao, Filipinas. O seu primo, líder de um movimento contra as grandes mineradoras, foi executado em 2015 junto com outras duas pessoas. Os povos originários nas províncias de Davao del Norte, Surigao del Sur e Bukidnon enfrentam a perseguição e o deslocamento das suas terras de origem.

Centenas de famílias optaram por abandonar as suas comunidades e ir para outras áreas. O CICV levou alívio e, finalmente, assistência às comunidades em Surigao del Sur quando evacuaram as suas casas.