Paraguai: Tempo de colheita

09 outubro 2015

Tomasa Escobar  trabalha de duas a três horas todos os dias na horta da família. Após receber os insumos e instruções do CICV, ela começou a se dedicar a sua horta e a se especializar no cultivo de tomates.  CICV/Luis vera

Em mais uma manhã de final de setembro no norte do Paraguai, quando as temperaturas beiram os 40°C, Alcides Obregón e sua mulher, Nélida González, se dedicam, como fazem todos os dias, a trabalhar em sua horta. Sob uma tela de sombreamento que evita que verduras ressequem e se queimem com o sol forte da região, eles colhem alface, tomate, cenoura, cebola, pimentão, beterraba, pepino e repolho para o almoço deles e dos três filhos.

A família de Alcides e Nélida é uma das mais de 150 beneficiadas pelo programa de hortas familiares que o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) desenvolve em Tacuaty Poty, pequeno assentamento no departamento de San Pedro, norte do Paraguai. A inciativa, que começou há cerca de seis meses, já trouxe benefícios visíveis para a população local.

"Nossos gastos com alimentação caíram para menos da metade: se antes gastava de 50 a 70 mil guaranis por dia para alimentar minha família, agora gasto uns 20 mil, e só para comprar carne e arroz, pois todo o resto colho aqui, na nossa horta. Temos verduras e suco de beterraba e cenoura para as crianças todos os dias", afirma Obregón, confiante. Um dos mais entusiasmados com o projeto, o agricultor utiliza as técnicas de produção orgânica e preparação do terreno ensinadas pelos técnicos do CICV para melhorar as culturas, e é um dos primeiros na comunidade a produzir suas próprias sementes. Empolgado com os resultados, já dobrou a área inicial da sua horta e planeja até o final do ano quadruplicar o espaço.

Para o encarregado do CICV pelo projeto de hortas familiares, o engenheiro agrônomo Hector Rivarola, as melhoras observadas na comunidade não são apenas econômicas ou nutricionais, mas também de percepção das próprias capacidades. "Mais que uma melhora nas condições de vida ou econômicas, eu vejo uma mudança nas pessoas, parecem mais entusiasmadas. Com o pontapé inicial do projeto, passaram a ver o resultado dos seus esforços e a acreditar em seu próprio trabalho". Segundo ele, muitos já aprenderam a produzir e a guardar suas próprias sementes, e a expectativa é de que em um ou dois anos toda a comunidade será autossuficiente em diversos cultivos. Muitos também já começaram a praticar técnicas naturais e econômicas de adequação, preparação, correção e fertilização do solo, além de controle de pragas e enfermidades, que utilizam insumos encontrados nas próprias comunidades, nas próprias hortas, para aumentar a produtividade destas.

Tomasa Escobar tem uma família de nove pessoas, que conta com marido, filho, nora e cinco netos. Após receber os insumos e instruções do CICV, ela, como muitos outros, também começou a se dedicar a sua horta e a se especializar no cultivo de tomates. Hoje, vende o excedente da produção para as fazendas da região, que procuram seus tomates para reforçar a alimentação dos empregados. E, quando a demanda é muita, recorre a suas vizinhas para atender os pedidos, ajudando assim a dinamizar a economia do assentamento. "Esse é um sonho que sempre tive, ter verdura na mesa todos os dias. E nem podia imaginar que receberia a ajuda de vocês. Além de melhorar a alimentação da minha família, eu posso lucrar e ajudar minhas vizinhas. Estou muito feliz", disse.

Implantado inicialmente em Tacuaty Poty, o programa de hortas familiares já está sendo levado a outras comunidades, como Santo Domingo, também localizada no norte do país e vulnerável às consequências humanitárias da violência armada que afeta a região.

Desenvolvido pelo CICV com o apoio da Cruz Vermelha Paraguaia (CRP), o programa visa atender a uma demanda das próprias comunidades. Enquanto o CICV é responsável pela distribuição de insumos (arame, tela de sombreamento, ferramentas e sementes) e treinamento técnico sobre o manejo dos cultivos, as comunidades beneficiadas são responsáveis pelo preparo da terra, pela mão de obra e pela mobilização das famílias participantes.

 

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