“Posso ver que são amadas” – Fotógrafa reencontra órfãs ruandesas

12 janeiro 2017
“Posso ver que são amadas” – Fotógrafa reencontra órfãs ruandesas
Philomène, 12, com a avó Marie Mukambabazi. CC BY-NC-ND / CICV / Nadia Shira Cohen

Faz dois anos que a fotógrafa Nadia Shira Cohen conheceu as duas jovens órfãs que foram reunidas com a avó pelo CICV em Ruanda. Em agosto do ano passado, ela voltou para ver como a vida das meninas que perderam a mãe mudou.

Ainda usam os vestidos nas cores vermelho e rosa que comprei para elas há dois anos. Estão rasgados e velhos agora. A casa de barro, iluminada pela chama de uma única vela, está se desmoronando. No entanto, a parte mais importante da história dessas meninas: posso ver que são amadas.

Wa-Jali, nos arredores de Kigali, Ruanda, onde Philomène e Jeanne Françoise vivem agora com a avó. CC BY-NC-ND / CICV / Nadia Shira Cohen

Dois anos atrás, eu dei uma gargalhada quando Jeanne Françoise e Philomène viram um chuveiro pela primeira vez. Elas devem ter ligado e desligado o interruptor do quarto do hotel umas cem vezes aquela noite, maravilhadas com a sua eficiência. Eu as acompanhei quando uma equipe do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) levaram as duas – então com 10 e 8 anos – de volta para a avó materna em Ruanda. A vida seria melhor para elas, eu esperava.

Em casa, depois de escurecer. Marie e as netas somente podem usar uma lamparina quando elas têm dinheiro sobrando para comprar querosene. CC BY-NC-ND / CICV / Nadia Shira Cohen

As duas cresceram em Congo Brazzaville, já que os pais haviam fugido de Ruanda durante o genocídio de 1994. Embora este já seja um triste começo de vida, as coisas só pioraram. A mãe delas morreu durante o parte e o pai morreu de AIDS. Elas foram enviadas a uma família adotiva, mas a vida ali era muito dura, provavelmente melhor descrita como uma vida com abusos.
Tratadas como empregadas domésticas, os espancamentos eram comuns. Também era normal terem de acordar às 5h da manhã, quando as meninas eram obrigadas a ir para o campo afastar os morcegos da plantação de cebola. Elas lavavam roupas e louça, limpavam e cozinhavam. Os pais adotivos mentiam para elas como seria a vida em Ruanda numa tentativa de mantê-las escravizadas.

Philomène e Jeanne Françoise ajudam a avó a juntar lenha. CC BY-NC-ND / CICV / Nadia Shira Cohen

Lembro de ter sentido uma mistura de curiosidade e esperança ao ver Jeanne Françoise e Philomène serem reunidas com a avó, Marie Mukambabazi. Hoje, dois anos depois, decidi voltar para ver como estava a família. Embora a vida delas seja simples, a comida escassa e o dinheiro minguado, estou feliz de contar que elas estão bem.

Brincando no pátio com parentes e vizinhos. CC BY-NC-ND / CICV / Nadia Shira Cohen

Os vestidos que dei me mostravam o quanto o dinheiro era pouco. As meninas os usaram, com furos e tudo, durante toda a minha visita de quatro dias. Não havia combustível para as lamparinas caseiras. Esta vida de pobreza material me deprimiu em um primeiro momento, até que comecei a notar a relação com a vó e a vida que elas criaram juntas.

Philomène mostra para a vó o livro da escola. CC BY-NC-ND / CICV / Nadia Shira Cohen

É evidente que as meninas têm uma das coisas mais importantes para uma criança: amor. Elas também recebem afeto e disciplina. E sabem agora que a vida não se trata somente de tarefas domésticas. Dançar e brincar também fazem parte das suas vidas. Marie, a avó solteira que se voluntariou para cuidar delas, virou mãe de novo aos 72 anos, impossibilitada de trabalhar e vivendo em condições precárias. Mas ela se empenha para dar às meninas tudo o que ela pode.

As duas irmãs a caminho da escola primária. CC BY-NC-ND / CICV / Nadia Shira Cohen

Elas vão à escola onde estudam nos idiomas Kinyarwanda e inglês. O professor delas, Niyonzima Vedaste, me contou que elas são boas alunas. Dada a situação financeira da família, elas têm sorte de poder estudar. Quando as meninas chegaram, os professores e os pais decidiram não cobrar as taxas anuais de 120 dólares. Philomène, agora com 12, quer ser professora de kinyarwanda, o idioma da mãe. Jeanne Françoise, 10, quer ser médica.

Philomène e Jeanne Françoise com os colegas no segundo ano da escola primária. CC BY-NC-ND / CICV / Nadia Shira Cohen. 

O processo de reunificação realizado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha levou muito tempo, mas Marie está feliz que ele aconteceu. "As meninas trouxeram a alegria de volta à minha vida depois de muitos anos", me contou. Quando as irmãs chegaram pela primeira vez, ela diz que era muito difícil discipliná-las. Brigavam com frequência e não tinham afeto nem alegria. "Eu brinco com elas, fazemos piadas e rimos", explica Marie. "As crianças precisam disso".

Brincando com os familiares e vizinhos. CC BY-NC-ND / CICV / Nadia Shira Cohen

A minha visita posterior me convenceu que a mudança para Congo Brazzaville foi a decisão correta. Como mãe, senti tristeza pela mãe de Jeanne Françoise e Philomène. Ela teria adorado ver como as meninas se tornaram jovens especiais. Mas me consolo com o fato de que ela estaria aliviada de saber que elas estão finalmente em casa.

CC BY-NC-ND / CICV / Nadia Shira Cohen