República Democrático do Congo: sofrimento das famílias que fogem da violência em Kasai

11 outubro 2017
República Democrático do Congo: sofrimento das famílias que fogem da violência em Kasai
As equipes do CICV e da Sociedade Nacional distribuem alimentos e utensílios de cozinha na primeira hora da manhã todos os dias, para que as refeições possam estar prontas ao meio-dia. CC BY-NC-ND / CICV

Na cidade de Kikwit, na província oriental de Kwilu na República Democrática do Congo, mais de 12 mil pessoas se encontram em uma situação humanitária alarmante.

Essas pessoas, na sua maioria mulheres e crianças, estão deslocadas desde março deste ano, quando foram obrigadas a fugir de confrontos extremamente violentos entre uma milícia local e as forças de segurança nacional, assim como da violência étnica que afeta a região vizinha de Kasai. Elas encontraram refúgio com famílias que as acolhem, em igrejas ou escolas, com a sua situação permanecendo extremamente precária.

"Quando chegaram aqui, essas famílias não tinham para onde ir e se amontoaram na ribeira do rio Kwilu ou encontraram abrigo nas entradas das lojas, onde passavam a noite deitadas no chão", explica o presidente da Cruz Vermelha da República Democrática do Congo, Dudu Musway. "Algumas pessoas tinham diarreia, tifo ou problemas digestivos."

A intensidade dos combates tomou de surpresa pais e filhos. Para fugir da violência, viajaram mais de 300 quilômetros, quase sempre a pé, durante duas ou três semanas. "Fiquei chocado ao ver uma mulher com o seu bebê nu de duas semanas, andando pelas ruas buscando comida", conta Fortunat Osuth, professor da escola secundária Kagwa, um dos principais colégios católicos na cidade. Ele foi um dos primeiros moradores da cidade a alertar as autoridades locais quando as primeiras famílias começaram a chegar, vindo de Kasai.

Traumatizadas pela brutalidade que testemunharam, as mulheres estão afetadas psicologicamente. "Elas passaram por uma experiência profundamente traumática", explica Anièce Kiyungu, que faz parte de uma associação local de mulheres.

"Algumas viram os maridos serem decapitados, os filhos degolados."

A solidariedade entre as famílias, os esforços das organizações humanitárias e o apoio das autoridades da cidade foram bem acolhidos pelas pessoas carentes, embora os gestores da cidade tenham ficado sobrecarregados rapidamente pelo fluxo em massa dos deslocados. Como afirma o vice-prefeito Jean-Claude Mungala: "Quando as primeiras pessoas chegaram em março, começamos, com a ajuda dos líderes comunitários, a registrá-las para poder acomodá-las melhor, mas a situação rapidamente se tornou insustentável."

Encontrar abrigo é um desafio para as pessoas deslocadas. Muitas famílias têm de viver apertadas, chegando a dormir no chão. CC BY-NC-ND / CICV

A Cruz Vermelha da República Democrática do Congo e o CICV trabalharam em conjunto para prestar assistência humanitária em duas fases: primeiro, a distribuição emergencial de refeições quentes, seguida por ajuda financeira para as famílias aumentarem a sua resiliência.

"Supervisionadas pelos voluntários da Cruz Vermelha, as pessoas deslocadas cozinham e distribuem comida para quase nove mil pessoas todos os dias", disse o chefe da equipe do CICV em Kikwit. "Moradores generosos nos deixaram usar o terreno deles para instalar seis cozinhas coletivas."

Ezéchiel Kandomba, director acadêmico do Instituto Pungu, um colégio do lugar, acrescenta: "Essas refeições são uma grande ajuda, uma luz no horizonte para essas famílias." Kandomba ofereceu um pedaço do seu terreno para uma das cozinhas. "Fiz por compaixão", declara.

Ajuda financeira como uma forma de autossuficiência

A entrega da ajuda financeira foi organizada através da filial local de um banco. Cada família recebeu um cartão de identidade que permite o saque do dinheiro.

"A finalidade desse apoio monetário é fornecer aos deslocados os meios para cobrir uma parte significativa das suas necessidades básicas e, caso apropriado, ajudá-los a abrir um pequeno negócio para gerar renda, obtendo um certo grau de autonomia", explica Bruno Mesureur, coordenador do programa pelo CICV.

Luzolo, mãe de dois filhos e grávida do terceiro, promete que "este dinheiro será usado antes de mais nada para comprar roupas. Uso as mesmas roupas desde que cheguei em Kikwit e os meus filhos não têm nenhuma. Depois disso, acho que vou comprar carvão para vender." Como Luzolo, muitas outras pessoas pretendem usar a ajuda financeira para melhorar as suas vidas depois do trauma por que passaram.

Luzolo no guichê do banco, fazendo o saque do dinheiro fornecido pelo CICV. CC BY-NC-ND / CICV

Os problemas e a violência extrema na região vizinha de Kasai obrigaram mais de um milhão de pessoas a abandonarem as suas casas. O CICV e a Cruz Vermelha da República Democrática do Congo ajudam atualmente 29 mil pessoas nas províncias de Kasai-Central e Kwilu e se preparam para estender a assistência a mais pessoas deslocadas e retornadas.