Saúde mental em foco

Saúde mental em foco

Artigo 24 março 2022
Balanço Humanitário 2021

Ao longo de 2021, a Delegação Regional para Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai trabalhou para garantir serviços de apoio psicossocial a vítimas de violência, familiares de pessoas desaparecidas e cuidadores em geral

A Saúde Mental e o Apoio Psicossocial (SMAPS) são, por vezes, delegados a um segundo plano em ações e políticas de respostas às necessidades humanitárias. No Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), no entanto, a preocupação com o tema acompanha diversas áreas de atuação, de forma transversal. Afinal, para bem executar uma missão humanitária, é preciso ter um olhar humano e empático, que se estenda sobre a comunidade e sobre a equipe responsável por atendê-la.

Em 2021 (segundo ano consecutivo da pandemia), retornou o cuidado com a saúde mental e o bem-estar psicossocial de forma ainda mais desafiadora para a Delegação Regional do CICV para Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai.

Reforçamos a atenção e o cuidado, monitoramento e diálogo, tanto da nossa equipe quanto dos colaboradores e da população assistida. Quando se trata de pessoas, tratamos de bem-estar. Não tem como separar essas questões, afirma a coordenadora do Programa de Saúde Mental e Atenção Psicossocial da Delegação, Renata Reali.

O foco principal dos trabalhos da área, no último ano, foram os três públicos atendidos pelo CICV: as vítimas de violência armada; os familiares de pessoas desaparecidas, e os próprios cuidadores. Como eles já enfrentam uma realidade muito dura no seu dia a dia, a pandemia poderia impactar ainda mais sua saúde mental. Justamente por isso, a Delegação promoveu o diálogo e buscou conhecer os serviços existentes em Boa Vista, Fortaleza e São Paulo, onde o CICV tem presença, com a possibilidade de firmar parcerias aptas a fornecer atendimento e atividades voltadas para o suporte à saúde mental e o apoio psicossocial a essas pessoas.

Mapeamentos de serviços SMAPS, oficinas e webinários foram realizados, no intuito de compartilhar experiências e debater estratégias de apoio psicossocial. Resultado? Os parceiros sentiram-se acolhidos e amparados, com perspectivas de melhora dos serviços de saúde mental e apoio psicossocial com enfoque nas necessidades específicas dos familiares de pessoas desaparecidas.

Nosso trabalho faz uma diferença que, às vezes, não é imediatamente visível. É um trabalho mais subjetivo, mas ter a possibilidade de trabalhar visando um suporte, uma melhora no bem-estar, uma proteção a vítimas de violência, por menor que possa parecer, é motivador. Existem pessoas sofrendo e sendo marginalizadas por falta de atenção. Nós queremos fazer diferença na vida dessa pessoa.

Intersetorialidade

O mapeamento e o reconhecimento da realidade das vítimas de violência armada da cidade de Fortaleza, capital cearense, onde o CICV tem um escritório, deu início a um dos principais projetos realizados pela equipe do Programa de Saúde Mental e Atenção Psicossocial da Delegação em 2021.

Reconhecemos o que acontece ou o que não acontece no âmbito da saúde mental, o que é oferecido às pessoas afetadas pela violência e nos aproximamos de autoridades para poder sensibilizá-las e avaliar frentes que poderiam ser trabalhadas

O estudo realizado pelo CICV identificou que não existem serviços públicos focados no apoio à saúde mental das pessoas impactadas pela violência e de seus familiares na cidade de Fortaleza. Desde então, a equipe da Delegação deu início a um trabalho de estreitamento de laços com autoridades e interlocutores-chave para a criação e o fortalecimento desses serviços. "O objetivo é dar suporte aos sobreviventes, garantir o bem-estar emocional, psicossocial, a saúde mental, sempre por meio de serviços locais, para garantir sustentabilidade", afirma Reali.

Palestra sobre saúde mental em Boa Vista. Foto: Benjamin Mast/CICV

Em parceria com o Comitê Estadual do Programa de Proteção do Ceará, a Delegação realizou quatro sessões de sensibilização e workshops para abordar a importância da temática, com uma média de 20 participantes por sessão. Dois desses encontros contaram com a participação do CICV da Colômbia e de Honduras, em uma ação de intersetorialidade na resposta às pessoas impactadas pela violência armada.

"Foi muito interessante, porque profissionais-chave de serviços essenciais públicos também participaram do evento. A ideia era sensibilizá-los sobre a necessidade de ter um olhar mais cuidadoso para essas vítimas e estimular a intersetorialidade entre os serviços, no âmbito de saúde mental e apoio psicossocial", esclareceu a coordenadora.

Ao longo do ano, o Programa de Saúde Mental e Apoio Psicossocial realizou, ainda, o acolhimento de quatro pessoas que precisaram de uma avaliação para encaminhamento. Esse tipo de suporte é realizado em casos muito específicos, já que o CICV não oferece cuidados individuais, como psicoterapia.

Pessoas Desaparecidas

Em 2021, a Delegação do CICV para o Brasil entregou às autoridades brasileiras o relatório Ainda? Essa é a palavra que mais dói, baseado em um levantamento completo das necessidades e demandas das famílias de pessoas desaparecidas do estado de São Paulo, realizado em 2018.

Nesses e em outros casos, as informações compartilhadas são colhidas de entrevistas e experiências vivenciadas com esse público — uma escuta ativa para que o CICV possa oferecer sugestões de serviços de apoio psicossocial às autoridades estaduais e a um grupo integrado com o Governo Federal, por meio do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Após o lançamento da publicação, foram realizados dois webinários — em conjunto com a Secretaria de Saúde do estado de São Paulo — atentos às necessidades de saúde mental e atenção psicossocial dos familiares de pessoas desaparecidas. Os eventos foram assistidos por quase mil pessoas.

"Essas ações visam sensibilizar tanto os profissionais que estão ali, na linha de frente, quanto outras secretarias do município e do Estado. No momento, temos feito um mapeamento de outros serviços que oferecem apoio psicossocial ou de saúde mental para essa população em São Paulo", afirma Renata Reali.

Ainda segundo a coordenadora, o ano foi dedicado ao mapeamento, ao estreitamento de laços, à cooperação e à colaboração na criação de grupos de trabalho e ações em conjunto para melhor atender às famílias de pessoas desaparecidas daquele estado. "A ideia é que esses laços se estreitem e que possamos fortalecer a resposta dessas secretarias aos serviços que eles têm trabalhado e tentado oferecer a esse público."

Em Fortaleza, o CICV colaborou com oficinas oferecidas à Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa. "Falamos sobre a necessidade desses familiares, quando chegam à delegacia. Porque não é tão simples dar um acolhimento adequado para eles e criar um espaço propício para levantar a informação necessária , devido ao estresse da situação. Nessas ocasiões, coletamos informações sobre como acontece o acolhimento. O objetivo é fortalecer esse trabalho, dar alguma recomendação que colabore com esse processo tão delicado ", explica Renata.


Desafios

Na avaliação de Renata Realli, um dos principais desafios de sua coordenação é iniciar o trabalho de sensibilização das pessoas sobre a importância de investir na saúde mental e na atenção psicossocial dos diferentes públicos atendidos pelo CICV.



Profissionais de saúde enfrentam situações de estresse e desgaste no trabalho. Foto: Daniel Marenco/CICV

 

"Nem sempre encontramos serviços focados nas populações com as quais trabalhamos. Então, temos que iniciar um trabalho mais de base, de sensibilização. E, a partir daí, dar um suporte para criar ou fortalecer algum serviço já existente, mas que tenha um olhar mais a fundo para as temáticas da saúde mental e às necessidades específicas de cada população", finaliza.

Muitos programas SMAPS (assim como o de proteção) estão limitados aos financiamentos, porém a saúde mental e bem-estar das pessoas não são processos que podem ser descontinuados, nem acelerados. Por isso, é necessário trabalhar sobre mecanismos de prevenção e resposta às necessidades nessa área das pessoas afetadas pela violência.