Brasília (DF) – Familiares de pessoas desaparecidas, autoridades e professores participaram, nesta sexta-feira (29/8), do lançamento do livro Sabor da Saudade. A publicação reúne receitas e histórias de desaparecidos, revelando os rituais cotidianos que giram em torno da cozinha e da mesa, como símbolos de memória, afeto e persistência.
Sabor da Saudade é uma iniciativa do Movimento Nacional de Familiares de Pessoas Desaparecidas, com o apoio do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV). Mais do que um livro de receitas, Sabor da Saudade é uma forma de dar visibilidade às consequências do desaparecimento no Brasil.
“Esse livro é uma tradução de um sentimento. É uma lembrança do Kaio, mas é também uma mostra de resistência, que a gente está aqui resistindo para não ser esquecido mesmo”, afirma Débora Alves Inácio, durante o lançamento. Ela é uma das coautoras do livro e mãe de Kaio, que desapareceu em 2013, aos 17 anos.
No livro, cada receita é mais do que um conjunto de ingredientes e instruções – é a lembrança de alguém amado, memórias e histórias que se escondem por trás de cada prato. “Toda vez que o tempo virava para chuva, quando dá uma ‘nuveada’ como a gente fala em Paiçandu (Paraná), ela já falava: ‘Ih, arrepiei três vezes, pode fazer sopa de macarrão com feijão para mim’”, conta Gislaine Ferreira da Silva, coautora e irmã de Graciane, que desapareceu em 2005, aos 18 anos.
Sabor da Saudade é um tributo à ausência e uma celebração da persistência de milhares de famílias que lutam para manter viva a identidade de quem ainda não voltou. Porque cozinhar também é lembrar. Cada receita carrega consigo um momento, uma presença, um ritual quotidiano, um sabor que, de repente, se transformou em saudade. Um café coado antes do trabalho, um bolo assado enquanto se espera alguém, um prato favorito preparado para reviver o não vivido, um copo de achocolatado numa tarde fria.
“Ainda que comer seja obrigatório, cozinhar é uma escolha”, afirma o chef Max Jaques, coordenador técnico do livro. “Sabor da Saudade é um espelho de como essas famílias podem lembrar, preservar e se nutrir com essas memórias”, acrescentou.