Comunicado de imprensa

Brasil: Rede Acesso se reúne em Salvador para fortalecer serviços públicos em áreas afetadas por violência armada

Foto grupal
A. Frutuoso/CICV

Salvador, 27 de novembro de 2025 - Quando uma escola precisa esvaziar o pátio às pressas por causa de um tiroteio no entorno, ou quando uma unidade de saúde é obrigada a fechar as portas enquanto pacientes batem no portão em busca de atendimento, o impacto da violência armada deixa de ser estatística e passa a ser cotidiano. 

É nesse contexto que o Programa ACESSO, do Comitê Internacional da Cruz Vermelha  (CICV), atua há mais de uma década para fortalecer a capacidade de escolas, unidades de saúde e outros equipamentos públicos de continuarem funcionando mesmo em meio à violência armada. 

Para fortalecer esse trabalho, entre dias 26 e 27 de novembro, representantes de oito municípios e mais de 25 instituições parceiras se reuniram em Salvador para o X Encontro da Rede Acesso 2025, organizado pelo CICV e a Prefeitura de Salvador. Este encontro na capital baiana foi um espaço de troca, governança e construção conjunta de estratégias para garantir que esses serviços públicos essenciais sigam acessíveis às comunidades que deles dependem.

Na abertura do encontro, o chefe da Delegação Regional do CICV para Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, Nicolas Olivier, destacou que em 2026 o programa será aprimorado e ainda mais sustentável, incentivando maior autonomia dos parceiros e chegada de novas parcerias que, inclusive incita a organização a pensar em estratégias de fortalecimento e inspiração de boas práticas entre os pares. Entre os avanços previstos, está o lançamento de uma nova plataforma digital do programa Acesso que incluirá o ensino à distância e a Plataforma de Notificação de Riscos. 

“Queremos que nossos parceiros sejam ainda mais independentes. É importante que continuemos os esforços para inovar e desenvolver estratégias de governança para dar continuidade do programa, garantindo os efeitos dos resultados em âmbito local”, afirmou Nicolas Olivier.

Nicolas Olivier
A. Frutuoso/CICV
A. Frutuoso/CICV

Salvador, que recepciona o evento, é a mais recente cidade do Brasil a aderir ao Acesso. Na capital, seis secretarias municipais estão envolvidas com a implementação do  programa nos serviços essenciais para a população. 

Para o secretário da Casa Civil de Salvador, Luiz Carrera, que representou o prefeito Bruno Reis, os profissionais de Saúde, de Educação, de Assistência Social, de Reparação e da Infância e Juventude estão mais expostos às consequências da violência armada na região, uma vez que trabalham no território. “São as pessoas mais próximas entre o poder público e a comunidade e, portanto, mais vulneráveis. Por isso, demos todo o apoio ao Acesso em Salvador para melhor cuidar dos profissionais e das pessoas das nossas comunidades”, afirmou Carrera.

O secretário municipal de Promoção Social, Combate à Pobreza, Esportes e Lazer, Júnior Magalhães, disse que a intenção é ampliar de 28 para 65 unidades de sua pasta que já utilizam o programa em Salvador. “Antes do Acesso, não sabíamos quando e se deveríamos fechar a unidade. Hoje, temos o protocolo e as equipes estão treinadas e capacitadas para entender a situação. Se não há treinamento, ao invés de analisar a situação, o profissional pode piorar a situação. O Acesso é simples, mas tem um impacto importante nas equipes técnicas, especialmente nas que estão nos territórios mais vulneráveis”, ressaltou.

Dinamica
A. Frutuoso/CICV
A. Frutuoso/CICV

Para o diretor geral de Governança e Projetos da Secretaria Municipal de Gestão da Prefeitura de Salvador, Reynaldo Neto, participar da organização do evento trouxe ainda mais consciência sobre a importância dessa agenda. “Estamos falando em garantir que serviços essenciais continuem funcionando mesmo diante da violência armada. E isso só é possível quando colocamos as pessoas no centro das decisões. Ver representantes de todos os estados aqui hoje fortalece ainda mais essa rede. Celebramos avanços, mas seguimos com o desafio de evoluir sempre”, afirmou.  Também participaram do encontro os secretários municipais de Gestão, Alexandre Tinoco; de Políticas para Mulheres, Infância e Juventude, Fernanda Lordelo; de Reparação, Isaura Genoveva, entre outros representantes dos estados e municípios que compõem a rede Acesso.

O que é o Programa ACESSO

Nos territórios onde a violência armada interrompe rotinas e impõe riscos diários, servidores públicos são obrigados a tomar decisões difíceis muitas vezes sem tempo, sem estrutura e sob forte pressão emocional. É justamente para apoiar essas equipes que o Programa Acesso existe.

Segundo Giselle Fernandes Corrêa, coordenadora do programa no CICV, o Acesso é resultado de uma combinação de metodologias do CICV adaptadas à realidade brasileira. O Acesso oferece conhecimentos como análise de contexto, gestão de risco, gestão de crise e também gestão do estresse, permitindo que servidores e gestores ampliem suas capacidades institucionais para operar de forma mais segura em áreas afetadas por confrontos, incursões policiais, circulação de grupos armados e outras situações de risco.

O programa começou em 2009, no Rio de Janeiro, e ganhou a forma atual a partir de 2016, quando passou a ser implementado também em Porto Alegre, Florianópolis, Vila Velha, São Paulo, Rio de Janeiro, Duque de Caxias, Salvador e Fortaleza. Hoje, são cerca de 2.130 equipamentos públicos que utilizam as ferramentas em seus territórios. Além disso, mais de 43 mil profissionais já foram treinados na metodologia do Programa ACESSO e mais de 14 mil em Comportamento Mais Seguro (CMS) na modalidade de ensino a distância (EaD).

O objetivo central é garantir que serviços essenciais, como educação, saúde e assistência social, continuem sendo ofertados à população mesmo em situações de violência armada. Para isso, cada instituição parceira incorpora as ferramentas à sua rotina, adequando procedimentos e fortalecendo equipes.

Apesar dos avanços e da consolidação do programa, o CICV reforça que ainda é preciso investir em estratégias duradouras de governança e de integração entre secretarias e setores. O Encontro da Rede Acesso 2025 surgiu como um espaço para discutir boas práticas, refletir sobre desafios e avançar na construção de políticas mais autônomas e sustentáveis.

O impacto na vida de quem está na linha de frente

E os relatos de quem vive essa realidade mostram como a metodologia transforma práticas e fortalece capacidades institucionais.

Na Unidade de Saúde da Família Vila Fraternidade, em Salvador (BA), a gerente administrativa Eliette Pereira lembra do início do seu trabalho em um ambiente marcado por abordagens de grupos armados e decisões solitárias. “Não é fácil você ter vidas ali e tomar decisões sozinha. Então, o que eu puder fazer para fortalecer esse programa e levar para a minha equipe, para que eles se sintam seguros, eu vou fazer”, diz.

Pereira conta que fechar a unidade sempre lhe causa angústia, e que mesmo com a metodologia, a violência continua impactando os serviços essenciais. “Eu digo: meu Deus, se essa unidade fechar, o que vai ser dessas pessoas? Eu não quero fechar. Eu não me sinto bem fechando a unidade que eu gerencio. Eu quero trabalhar”, ressalta.

O médico Julian Leite, também profissional da USF Vila Fraternidade, reforça que o impacto do programa se traduz diretamente na segurança da equipe. “Até os profissionais que não passam pela capacitação do grupo de tomada de decisão se sentem mais seguros. Eles leem os materiais, implementam comportamentos mais seguros, e isso invariavelmente aumenta a sensação de proteção”, explica. Ele destaca que a padronização das ações é o que permite manter o serviço funcionando mesmo em cenários sensíveis.

Em Fortaleza (CE), na Escola de Tempo Integral Maria Odete, a diretora Lenatla de Lima organiza a rotina da equipe com base no monitoramento diário do território. “Antes de chegar à escola, já recebo do vigia as informações sobre o que aconteceu durante a noite. Com isso, alimento a plataforma e deixo alunos e funcionários mais tranquilos”, explica.

Antes da implementação da metodologia, as reações da comunidade escolar eram involuntárias e descoordenadas. Agora, com protocolos claros, Lenatla reconhece que o preparo faz diferença: quando cada um sabe o que fazer, os profissionais se sentem mais seguros e passam essa tranquilidade aos alunos.

Mais informações

Delegação Regional do CICV em Brasília

Fabíola Góis – Assessora de Comunicação

fgois@icrc.org | +55 61 98248-7600