Brasil: Discurso de abertura da mostra "A falta que você faz"

A diretora de operações do CICV para as Américas, Sophie Orr, fala sobre o tema de pessoas desaparecidas

29 agosto 2019
Brasil: Discurso de abertura da mostra "A falta que você faz"
Foto: Ribamar Neto/CICV

Gostaria de agradecer a presença das senhoras e dos senhores nesta cerimônia. Promover essa exposição aqui no Museu da Cultura Cearense, do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, um espaço cultural tão icônico de Fortaleza, é uma honra para nós. Ficamos felizes com esta maravilhosa parceria com o Dragão e com o Governo do estado do Ceará.

Senhoras e Senhores, gostaria de aproveitar a oportunidade da presença de todos para chamar sua atenção para o assunto sério abordado por esta mostra.

A dor de um familiar sem respostas sobre o paradeiro de um ente querido é um sofrimento que desconhece fronteiras ou diferenças culturais. Seja no Brasil ou em qualquer país do mundo, o desaparecimento significa angústia para as famílias que buscam e que aguardam por muitos anos, mantendo a esperança de encontrá-los apesar das enormes dificuldades. Por isso, esta é uma preocupação reconhecida pelo direito internacional.

Pelo nosso contato com os familiares, vemos que a dor de uma mãe que não sabe o paradeiro de sua filha aumenta a cada dia que passa, e não saber o que aconteceu a mata aos poucos. De um filho em busca de informações sobre seu pai, aprendemos que no desaparecimento há uma busca interminável.

A partir o trabalho do Comitê Internacional da Cruz Vermelha aqui no Brasil, nossos colegas têm tido contato com várias famílias. Em cada uma delas, um universo de histórias, buscas, esperanças, luta e frustrações. Em cada casa, uma lembrança, um quarto vazio e muitas incertezas.

Esse problema é tão complexo que não sabemos dizer precisamente quantas pessoas estão desaparecidas neste momento. Pelos levantamentos feitos pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, porém, podemos saber que, no país, chegamos ao número de mais de 82 mil casos de desaparecimento registrados só em 2017. Esse número é um indicador importante do tamanho do problema, mas faço duas ressalvas: ele não indica quantos casos foram solucionados e também não consegue registrar situações em que as famílias não informaram à polícia o desaparecimento de um ente querido.

Para além das cifras e das estatísticas, queremos chamar a atenção das senhoras e dos senhores para o fato de que, por trás de cada número, há uma pessoa, que tem nome e sobrenome. Vamos nos lembrar de que, quando falamos "pessoas desaparecidas", estamos falando da Eliene, do Francisco, da Grazielli, do Leonardo, do Ribamar... Por trás de cada nome, também encontramos família e amigos que buscam sem cessar por informações, muitas vezes correndo riscos e gastando até o que não têm. Eles também têm nomes e rostos. São a Girliany, a Cleide, o Marcelo, a Rosa... Muitos deles estão aqui presentes conosco nesta noite.

Senhoras e senhores,
O direito internacional estabelece que os Estados têm a obrigação de prevenir que as pessoas desapareçam; precisam buscar e localizar as pessoas desaparecidas e adotar uma reposta integral em relação às necessidades dos familiares. Não é uma tarefa fácil, mas é um caminho que precisa ser percorrido.

Temos visto no Brasil alguns passos importantes sendo dados nesse sentido nos últimos anos. Neste ano, foi sancionada a lei que prevê o estabelecimento de uma política nacional e de um cadastro único de pessoas desaparecidas. Também no âmbito federal, o Conselho Nacional do Ministério Público está estimulando as promotorias de Justiça de vários estados a fazerem uso do Sistema Nacional de Localização e Identificação de Desaparecidos. Claro que há muito o que avançar, por exemplo, regulamentando a lei que foi sancionada. Mas os progressos devem ser reconhecidos.

Saber é um direito. Os familiares têm o direito de saber o destino e o paradeiro do seu ente querido.

Nós, do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, também temos nossa responsabilidade nessa resposta. Com base na nossa trajetória de mais de 150 anos de ação humanitária em dezenas de países, somos referência no Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho no trabalho com familiares de pessoas desaparecidas e respostas às consequências humanitárias da violência armada em cidades, entre outras temáticas.

Nos esforçamos em identificar e compreender as necessidades dos familiares de pessoas desaparecidas, e assim apresentar às autoridades recomendações que lhes permitam oferecer respostas mais adaptadas e pertinentes. Esse trabalho visa fortalecer a capacidade do Estado para esclarecer o paradeiro das pessoas desaparecidas por meio de assessoria e treinamento, além da oferta de apoio aos familiares durante o doloroso processo de busca. Aqui no Brasil estamos há mais de cinco anos nessa caminhada.

Aproveito a oportunidade para lembrar que integramos a maior rede humanitária do mundo, o Movimento Internacional da Cruz Vermelha, rede formada também por outras organizações como a Federação Internacional da Cruz Vermelha e as Sociedades Nacionais da Cruz Vermelha de cada país, o que inclui a Cruz Vermelha Brasileira. Compartilhamos dos mesmos princípios fundamentais, entre eles a independência, a neutralidade e a imparcialidade, mas somos independentes, com gestão e orçamento separados, não tendo o Comitê ingerência sobre as demais.

Senhoras e Senhores,
Ao instalarmos esta mostra aqui em Fortaleza, cidade em que começamos a trabalhar em parcerias no ano passado, queremos mostrar um pouco do drama enfrentado por esses familiares. A data desta abertura também é oportuna: amanhã é celebrado o Dia Internacional dos Desaparecidos, data que busca trazer mais reflexão para esta problemática.

Esta exposição traz imagens, capturadas com grande sensibilidade pela fotojornalista Marizilda Cruppe, e vídeos com famílias em um trabalho inovador de video mapping, dirigido por Rogério Costa. Com isso, queremos que vocês possam ter uma experiência de verdadeira imersão nesse universo dos familiares que o CICV acompanha.

O tema dessa exposição é grave, mas é absolutamente necessário. As famílias têm o direito de ter respostas, e nós, entre todos, estamos aqui para procurar ajudá-las.

Muito obrigada!