Foto: Fabríco Marinho/CICV

Brasil: Projetos de Água e Saneamento do CICV beneficiam migrantes e população em Pacaraima

O acesso à água potável e ao saneamento básico é indispensável para uma vida com dignidade. Enquanto uma das orientações para prevenção da Covid-19 é lavar as mãos, em algumas localidades, o acesso à água e sabão pode ser um luxo.
Artigo 30 agosto 2021 Brasil

Na cidade fronteiriça de Pacaraima (RR), na divisa com a Venezuela, a falta de acesso à água potável e ao saneamento tem sido um problema comum enfrentado tanto pela população acolhedora como por pessoas migrantes que chegam ao município diariamente.

A estudante Keberlin Yelena Ugas Martínez e o técnico em informática Roniel Alejandro Bermúdez Henrique se viram em uma situação complicada quando recentemente chegaram à cidade vindos da Venezuela. Sem um lugar para se abrigar, o casal teve que dormir algumas noites nas ruas de Pacaraima, sem um espaço apropriado para tomar banho ou uma fonte de água limpa para que pudessem beber e dar aos dois filhos.

Após alguns dias na condição adversa, Keberlin e Roniel econtraram acolhimento na Comunidade Batista de Pacaraima, que os recebeu como uma das famílias de migrantes venezuelanas do local.

A igreja é um dos lugares beneficiados pelo programa de água e habitação do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) no Brasil, que promove projetos em parcerias para melhorar as condições do abastecimento de água potável, condições de saneamento e higiene de comunidades impactadas pela migração em Roraima.

"Quando tomamos banho foi um alívio. Antes [da comunidade] a gente pedia pra tomar banho em um lugar emprestado de uma loja, era muito desconfortável, muita gente usava", diz Keberlin.

Agora ela, o companheiro e os filhos podem usar os banheiros do local, onde também está o abrigo onde dormem.

Além de construir banheiros com nove bacias sanitárias (privadas), seis chuveiros e sete pias que Keberlin e a família usufruem, o CICV foi responsável por construir nas dependências da igreja outro banheiro adaptado para pessoas com deficiência (PCDs), uma cozinha, um castelo d'água (onde há dois reservatórios com capacidade para 5 mil litros cada) e uma lavanderia. Toda estrutura foi construída pelo CICV e é compartilhada com o público interno e externo, chegando a atender diariamente cerca de 180 pessoas.

As obras não só benefeciam refugiados e migrantes, mas também a população local de Pacaraima. Foto: Fabríco Marinho/CICV

A equipe do Comitê Internacional da Cruz Vermelha também executou a perfuração de um poço semiartesiano e instalou uma bomba alimentada por energia solar no local, além do sistema de tratamento de águas residuais para as estruturas. Além disso, a organização doou materiais elétricos para a Comunidade Batista, que foram instalados pela Operação Acolhida para a iluminação do ambiente.

Responsável pela Comunidade Batista de Pacaraima, o pastor Gedeão Ferreira de Vasconcelos explica que a igreja começou o trabalho de atendimento à população migrante há quatro anos.

"Hoje temos banheiros masculinos e femininos. Em outros tempos só havia um banheiro para 100 pessoas. Naquele momento o Comitê veio, conheceu nossas dificuldades, e sugeriu a melhoria da estrutura por etapas", diz Gedeão, que ressalta que a parceria do CICV não é esporádica, mas ocorre de forma continuada, tanto por meio de assistência, como na qualificação de agentes para manejo do que foi entregue.

O pastor Gedeão Ferreira de Vasconcelos é um dos responsáveis pela Comunidade Batista de Pacaraima. Foto: Fabríco Marinho/CICV

"É fundamental termos um ambiente agradável, bem higienizado. É uma questão de manter a dignidade enquanto seres humanos, de eles saberem que estão acolhidos. Há casos de pessoas que passaram dias sem beber água gelada, por exemplo, e aqui temos um bebedouro. Algumas até ficam emocionadas quando sabem que aqui podem lavar suas próprias roupas", completa. A limpeza dos ambientes é feita voluntariamente pela própria população migrante, segundo o pastor. 

O espaço atende ainda a vizinhos e vizinhas da comunidade, como ocorre com a dona de casa Maribeth Cárdenas, que sempre visita o local para lavar a roupa e encher um galão com água limpa. Ela frequentemente leva o que coleta para casa, pois não são raras as vezes em que a família fica sem água devido a um problema de abastecimento da própria cidade.

"Venho lavar a roupa da minha família, aproveito e converso com as amigas. Eu pego um pouco de água porque sempre falta em casa e não temos poço. Acho que é porque a cidade é muito desnivelada e depende de uma caixa [d'água] só, não atende todo mundo. Toda essa estrutura é algo muito bom, você vê como ajuda na vida de quem mora aqui", afirma.

Além da Comunidade Batista, o CICV fez uma série de obras e assistências locais de Água, Saneamento e Habitação em Pacaraima. Houve perfuração de poços artesianos em locais-chave, como pontos onde já eram oferecidos serviços de abrigamento ou atividades para pessoas refugiadas e migrantes, mas que também beneficiam a própria população local.

As ações do CICV na região garantem o acesso à água potável e ao saneamento básico. Foto: Fabríco Marinho/CICV

Alguns locais onde os poços artesianos foram instalados são a Diocese da Igreja Católica no município, o Centro de Capacitação e Referência (CCR), duas escolas e uma creche do município, além da escola estadual. O CICVtambém revitalizou o poço artesiano do único hospital de Pacaraima.

Outra comunidade beneficiada foi a comunidade indígena de Tarau Paru, que ganhou banheiros comunitários, a reforma do posto de saúde e a instalação de uma bomba d'água com energia solar, beneficiando mais de 900 pessoas.

Outros dois projetos ainda serão iniciados pelo CICV: um dentro do Abrigo Indígena Janokoida, que atende o público da etnia Warao em Pacaraima, com a reforma e ampliação dos banheiros do local; e apoio na escavação para a construção de um sistema de tratamento de águas residuárias do Alojamento Transitório BV-8, em que o CICV foi procurado por entidades da Operação Acolhida. Em Boa Vista, o setor também está sendo ampliado.

A engenheira Sara Lopes Souto é responsável pelo programa de Água e Habitação do CICV em Roraima, que engloba esses conceitos dentro da área de infraestrutura no contexto de resposta humanitária.

Sara Lopes Souto é responsável pelo programa de Água e Habitação do CICV em Roraima. Foto: Fabrício Marinho/CICV

"Atuamos com assistência direta em projetos, apoiando com consultoria ou mobilizando atores. Temos a preocupação de acompanhar o pós-obra e fazemos parcerias como no caso da Funasa [Fundação Nacional da Saúde], que apoiou com treinamento sobre cloração e testagem da água. Observamos ainda o que precisa de reajuste e vemos como está sendo feito o uso, o que pode ser melhorado e mantido", relata Sara.

Para a engenheira, cuidar de saneamento básico e abastecimento é necessário para depois tratar outras questões humanas. "Isso confere dignidade à pessoa. pois são espaços, são estruturas físicas, que permitem o acolhimento e garantem que as necessidades mínimas das pessoas sejam atendidas para que depois possam seguir adiante com suas vidas", conclui.

Texto: João Paulo Pires