Brasil: “Ser enfermeiro é ajudar, estar próximo, cuidar”

09 maio 2016
Brasil: “Ser enfermeiro é ajudar, estar próximo, cuidar”
O enfermeiro Ricardo Laino em ação de prevenção contra a dengue no Rio de Janeiro em 2011. CICV/ Felipe Varanda.

O responsável pelo Programa de Saúde da Delegação Regional do CICV, Ricardo Laino, 41 anos, sempre se interessou por Saúde Pública. Com vasta experiência no campo da Epidemiologia, na Gestão da Saúde e na docência, atendeu ao chamado do trabalho humanitário em 2010, onde pode exercer sua vocação.

Ricardo  irá representar o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) no revezamento da Tocha Olímpica no Brasil. "Foi uma emoção muito grande. Me senti duplamente honrado", diz. Como parte da comemoração do Dia da Enfermagem, conta sua experiência no CICV. Ele foi responsável pelo programa Acesso Mais Seguro (AMS), que buscou reduzir e prevenir o impacto da violência sobre profissionais de saúde que atuam na Atenção Primária e residentes de comunidades do Rio de Janeiro, além de facilitar o acesso dessa população aos serviços primários de saúde pública.

O que é a enfermagem para você e quais os desafios dos trabalhadores em saúde hoje?

Ser enfermeiro é um desafio constante, porque você precisa lidar com várias pressões e linguagens no seu dia a dia. Você precisa falar a linguagem do seu paciente, de maneira que ele compreenda o que tem e de que maneira ele pode desenvolver seu autocuidado, tornando-se independente. Da mesma forma, inserir e apoiar os familiares em suas ansiedades e preocupações com a saúde de seu ente querido. Ao mesmo tempo o enfermeiro deve ser capaz de gerenciar a equipe de enfermagem, liderar e gerenciar materiais e processos de trabalho, lidando com seu próprio estresse e o da equipe.

E para quem atua em situações de conflito armado ou de violência há sempre uma preocupação com segurança. Queremos chegar às vítimas, mas ataques a estabelecimentos e profissionais de saúde muitas vezes nos impedem de salvar vidas.

Ser enfermeiro é prestar atenção ao detalhe, observar o ambiente e como ele influência na saúde das pessoas. E cuidar da enfermidade e apoiar a família. E liderar a equipe e gerenciar o funcionamento e andamento do serviço de saúde prestado. É uma profissão rica de possibilidades e cheia de desafios. Enfermagem é cuidado. E cuidado é aquilo que todo ser humano precisa desde o nascer ao morrer.

Você começou a trabalhar no CICV, você falou que sentiu essa vocação de ajuda humanitária. O que é isso para você e o que fez no CICV nesses anos?

Em toda minha trajetória de formação como ser humano e acadêmica, o meu interesse era sempre estar voltado para ajudar o outro. A escolha da enfermagem tem a ver com essa coisa do ajudar, do estar próximo, do cuidado. E o CICV me permite colocar em prática isso: usar as minhas habilidades e o meu conhecimento para ajudar outras pessoas.

Trabalhar no CICV é uma experiência desafiadora, uma experiência ímpar. Você precisa ser versátil, você precisa se despir de muitos preconceitos e precisa ter uma disponibilidade grande, porque é uma instituição que atua em um ambiente multicultural, então você lida com pessoas de diferentes nacionalidades, e tem de ter muita disponibilidade para isso, porque cada um traz sua cultura de casa.

Para mim, é um privilégio poder ajudar em uma instituição de tamanho nome e reputação no mundo humanitário. Por conta de sua versatilidade, acho que os brasileiros têm total capacidade de apoiar o CICV. É um povo alegre, é um povo que trabalha, transforma o estresse do dia a dia em festa, e a gente consegue, de uma maneira ou de outra, se liberar da tensão de uma maneira tranquila. Vale lembrar que muitas vezes no trabalho do CICV você precisa tomar decisões no último minuto. Essa é uma capacidade que o brasileiro tem nata.

O programa Acesso Mais Seguro (AMS) busca reduzir e prevenir o impacto da violência sobre profissionais de saúde que atuam na Atenção Primária e residentes de comunidades do Rio de Janeiro, além de facilitar o acesso dessa população aos serviços primários de saúde pública. Os profissionais adotam medidas de autoproteção e protocolos de segurança para casos de emergência. ©CICV/Patrícia Santos

Como foi seu trabalho no Rio de Janeiro?

Entre 2010 e 2013, nós desenvolvemos, em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde, uma metodologia basicamente voltada para o profissional de saúde que está lá dentro da comunidade, com eles e para eles. Uma metodologia que a gente chamou de "Acesso mais Seguro", em que estabelecemos, junto com as equipes, critérios e uma classificação para os riscos. A gente definiu com eles o que era um risco aceitável para o trabalho, apesar da violência, o que era um risco moderado e o que era um risco grave. Hoje, o município do Rio conta com essa metodologia instalada e com profissionais que acreditam nessa causa também. Isso é muito bom porque você vê o quanto que você tem de capacidade de mobilização de dezenas de pessoas, que podem se multiplicar e transformar uns aos outros. Então, é bastante gratificante ver que essa metodologia está sendo ampliada, tá sendo aplicada e que isso faz diferença na vida deles.

Como foi receber a notícia que você ia representar o CICV na Olimpíada do Rio? O que você sentiu?

Foi uma emoção muito grande. Desde criança eu via os jogos e falava: "Puxa, se um dia os jogos vierem para o Brasil, eu quero participar, quero fazer parte disso". Quando o Comitê Olímpico ofereceu essa oportunidade ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha e que eu fui escolhido pela equipe para representar o CICV, me senti duplamente honrado, por fazer parte desse momento histórico para o Brasil que é ter uns Jogos Olímpicos em nosso País, no Rio, especificamente, a cidade onde eu nasci. E também representar a instituição na qual eu trabalho, que é uma instituição de ajuda humanitária, que promove princípios de igualdade, de fraternidade e o Comitê Olímpico também tem esse objetivo. Então, para mim, é uma dupla honra fazer parte disso e eu espero estar à altura dessa representação.

 

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