Chade: sobreviver apesar de tudo. Eleonore Abena Kyeiwaa ASOMANI/CICV

Chade: sobreviver apesar de tudo

Em julho de 2023, me enviaram ao leste do Chade para conhecer pessoas que fugiram a pé da violência do Sudão. Passei duas semanas em um hospital que recebia apoio do CICV com pacientes se recuperando de ferimentos a bala, ouvindo o que eles tinham a dizer. Através de suas histórias, vi como a guerra é incrivelmente cruel para aqueles que não conseguem se proteger. Mas também vi como eles eram tremendamente fortes na sua luta pela sobrevivência.
Artigo 16 outubro 2023 Chade Sudão

Eleonore Abena Kyeiwaa ASOMANI é oficial de comunicação do Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Em suas próprias palavras, ela relembra sua missão no leste do Chade, em julho de 2023.

Achta, uma mãe que ficou tão entorpecida ao ver a filha morrer que não sentiu a bala no braço

Achta é uma mulher sudanesa de 60 anos que, como tantas outras, viu sua vida virar do avesso quando eclodiu a violência em seu país natal.

 Eu não senti a dor da bala entrando no meu corpo. Eu estava totalmente entorpecida ao ver minha filha ser morta a tiros na minha frente segundos antes. Somente quando vi o sangue, percebi que eu estava ferida.

Achta me contou sua viagem de dentro da segurança do seu quarto de hospital em Abéché, no leste do Chade, onde ela e a população civil fugiram para se refugiar do conflito no Sudão alguns dias antes.

Assim que entrei no hospital, o que senti primeiro foi o cheiro do suor, feridas infectadas e urina.

O hospital foi construído nos anos 70 com capacidade para 289 pessoas. Enquanto estava lá, devia haver cinco vezes mais pacientes do que a sua capacidade. Mães e seus recém-nascidos faziam fila nos bancos de madeira fora das salas superlotadas, movendo-se desconfortavelmente, tentando descansar. A sala de parto também impressionou: a cadeira rosa enferrujada e escurecida pelas manchas não era nada acolhedora. Mas era ali que os bebês respiravam pela primeira vez.

Uma equipe médica do CICV composta por duas enfermeiras, um anestesista e um cirurgião chegou uma semana antes de mim para tratar os refugiados feridos que vinham de Darfur, no Sudão. A equipe trouxe experiência e dedicação no trabalho de salvar vidas, mas as condições eram difíceis. As frequentes faltas de luz forçavam os médicos a operar com lanternas de cabeça, como faziam em hospitais improvisados no mato. Havia pouca água potável e remédios, e a falta de pessoal significava que trabalhavam por longas horas.

Os quartos onde os pacientes convalesciam depois da cirurgia tinham fileiras de camas de metal idênticas com finos colchões de plástico preto. As paredes amareladas com azulejos retrô davam a absurda impressão de que o quarto e todo o hospital eram frios. O ar sufocante agitado pelo ventilador de teto lembrava o contrário. Felizmente, os parentes colocaram colchões coloridos entre as camas para dormir e para cuidar dos pacientes, acrescentando um toque acolhedor e caseiro.

Antes do surto de violência, Abdel Hakim estudava geografia na universidade. Agora, em recuperação, ele comenta que, com 31 anos, tinha vivido mais em tempos de guerra do que de paz. O conflito em Darfur teve início em 2003 e terminou oficialmente em 2020, após um acordo de paz.
Antes do surto de violência, Abdel Hakim estudava geografia na universidade. Agora, em recuperação, ele comenta que, com 31 anos, tinha vivido mais em tempos de guerra do que de paz. O conflito em Darfur teve início em 2003 e terminou oficialmente em 2020, após um acordo de paz. Eleonore Abena Kyeiwaa ASOMANI/CICV

Abdel – um jovem que se fingiu de morto para sobreviver – agora tem pesadelos sobre os corpos espalhados pelas estradas de El Geneina

Para muitos, a chegada ao Chade era uma pausa bem-vinda, embora fosse mais uma parada para descanso do que o final da jornada. Cada um dos pacientes com quem conversei, me falou sobre um ente querido que tinha desaparecido ou morrido. Nossas conversas geralmente os levavam de volta às suas vidas tranquilas de antes – como bancários, estudantes universitários, lojistas. Essas eram as vidas bem normais das pessoas que conheci. Hoje, estão lutando para se recuperar de feridas infectadas, que podem levar meses para cicatrizar.

Abdel me disse que, depois de ser ferido, encontrou refúgio em uma escola, onde se escondeu durante dois meses com outras pessoas de sua vizinhança. Muitos morreram pela falta de cuidados médicos e alimentos. Ele fugiu da cidade com outros sobreviventes e seguiu em direção à fronteira com o Chade. No caminho, um grupo armado atacou o carro em que ele estava. Como estava ferido, fez-se de morto. Isso o salvou. Todos os outros foram mortos. Depois disso, incapaz de andar, ele rastejou por cerca de quatro quilômetros até encontrar uma aldeia que o acolheria.

Idriss, um homem que não acreditava que lembraríamos seu nome

Idriss trabalhou transportando areia na mesma cidade, El Geneina, em que Abdel Hakim estava escondido. Ele foi baleado por um franco-atirador quando tentava escapar. Alguém o levantou, mas deixou-o cair de novo e saiu correndo. Caindo com força, seu osso já parcialmente fraturado, quebrou totalmente. Três dias se passaram até que alguém apareceu para resgatá-lo. Quando anotei seu nome, ele confessou que se passaram meses desde que ele ouvira alguém falar todo o seu nome. Isso significou muito para ele, ver seu nome em preto e branco – Idriss Yaya Anour Ahmed.

Niemat, uma mãe que sabe que seu filho está morto

Ao entrar na enfermaria para mulheres e crianças, Niemat era a primeira paciente à esquerda. Nós nos conectamos instantaneamente, pois falamos inglês. Quando a conheci, ela já estava hospitalizada há 23 dias, por causa do quadril que foi fraturado por um tiro.

Seu filho tentou levantá-la onde ela caiu, e ela implorou que ele se salvasse. Com o ferimento, ela estava praticamente morta, ela disse. Mas seu filho não a deixou para trás, e eles conseguiram chegar ao abrigo. Uma semana depois, eles foram separados e Niemat não soube mais dele. Quando perguntei onde ela achava que ele podia estar, sua resposta me arrepiou – ele está morto, ela tem certeza disso.

A maioria dos pacientes foi ferida nas pernas, condenando-os aos seus já familiares leitos de hospital. Mas foi Niemat quem me contou que tinha o coração partido por ver Sihame e suas duas filhas dormindo no chão, porque não havia camas suficientes.

Naima, de sete anos, e Malak, de cinco, foram baleadas em sua casa por homens armados enquanto sua mãe estava na casa de um vizinho. Os homens foram embora somente quando Sihame saiu correndo, gritando que havia crianças ali dentro. Sihame atravessou a fronteira com suas filhas, determinada a encontrar ajuda para elas.

Finalmente, chegaram ao Hospital Abéché e foram tratadas pela equipe médica do CICV. Ambas as meninas foram atingidas nos braços, não nas pernas, de modo que podiam pelo menos andar e ter a atenção dos recém-chegados como eu, brincando e atrapalhando as fotos em todas as oportunidades, como crianças em todos os lugares.

Mansour e seu irmão Mounir, que morreu nas costas da sua mãe

Mansour estava deitado na cama ao lado de onde dormiam Malak, Naima e sua mãe. As três crianças obviamente se tornaram amigas. Sentei-me com a mãe de Mansour no pátio do hospital enquanto ela me contava o que tinha acontecido. Uma bomba caiu sobre a casa deles, ferindo Mansour na perna esquerda e seu irmão de dez anos, Mounir, no estômago. Ao carregar Mounir nas costas, buscando desesperadamente assistência médica, ele morreu.

O ar ficou mais denso enquanto as lágrimas dela caíam no chão.

Os pacientes cujas histórias contei acima continuam no Hospital Abéché, ainda batalhando, mas a caminho da recuperação. Quando perguntados qual o seu maior desejo assim que se recuperassem, todos disseram que queriam voltar para casa.

Nota aos leitores: depois de julho de 2023, os combates em El Geneina diminuíram, e não foram admitidos novos pacientes feridos na enfermaria, dando às nossas equipes algum descanso. Desde então, porém, mais serviços humanitários foram disponibilizados em Adré, a cidade da fronteira e passagem entre o Sudão e o Chade.