Zimbábue: como é viver com terror a um inimigo invisível

29-11-2013 Reportagem

Mais de 30 anos após o término dos conflitos na fronteira entre o Zimbábue e Moçambique, famílias e comunidades que habitam esta região de 210 quilômetros quadrados sofrem diariamente o flagelo das minas antipessoal. Desde 1980, mais de 1,5 mil pessoas e 120 mil cabeças de gado foram mortas e duas mil pessoas foram mutiladas por minas do lado zimbabuense da fronteira. O CICV e o Centro de Ações Antiminas do Zimbábue (ZIMAC, em inglês) têm trabalhado juntos nos últimos dois anos para intensificar as atividades de conscientização para a prevenção de riscos de acidentes com minas antipessoal nas comunidades afetadas pelas mesmas.

 

Quando Hlengani Mudzikiti (48), habitante do povoado de Gwaivhi, pisou em uma mina antipessoal em 2010, com a explosão ele perdeu a parte inferior da sua perna esquerda, enquanto a sua perna direita ficou gravemente comprometida. Mudzikiti afirma que embora estivesse plenamente consciente da presença de minas na região, quando o seu gado se desviou para o lado do campo minado, ele seguiu o mesmo caminho feito pelos animais, pensando que este seria seguro. Nenhum dos animais resultou ferido ou morto.

 

 

Em uma visita a Crooks Corner, ao campo de minas próximo ao posto fronteiriço de Sango, o Ministro de Defesa zimbabuense, Dr. Sydney Sekeramayi, o chefe da delegação regional do CICV em Harare, alguns oficiais de alto escalão do governo e os comandantes do exército recebem uma breve explicação sobre o tamanho do campo minado e o tipo de minas antipessoal normalmente encontrado no campo, dada pelo comandante da unidade responsável pela remoção das minas. Os pontos brancos no chão mostram o desenho formado pelas minas localizadas ao longo dos 53 quilômetros de extensão da mina. Depois de mais de 30 anos de chuvas, erosão e outros processos climáticos, as minas são às vezes difíceis de serem encontradas e removidas.

 

 

Vestidos com pesadas roupas protetoras, a equipe de remoção de minas do Exército Nacional do Zimbábue recebe instruções de um líder de equipe antes de embarcar em uma simulação de busca de minas antipessoal. A equipe trabalha diariamente a temperaturas extenuantes que rondam os 39 graus Celsius. Estas ações não são realizadas na época das chuvas (de novembro a março) devido às consequências das mesmas e da erosão no estado e na posição das minas. As péssimas condições das estradas devido às fortes chuvas nas áreas das reservas naturais que rodeiam os campos minados também impossibilitam a evacuação segura de qualquer membro da equipe que possa resultar ferido.

 

 

Um membro da equipe de remoção de minas do Exército Nacional do Zimbábue realiza uma simulação de busca de minas terrestres. De acordo com o Centro de Ações Antiminas do Zimbábue (ZIMAC), que supervisiona as atividades de remoção de minas em todo o país, os agentes treinados podem remover mais de 175 minas antipessoal por dia, cobrindo uma área de mais de três mil metros quadrados. Em 2013, até o momento, quase cinco mil minas terrestres foram removidas e destruídas. Entretanto, o ZIMAC estima que mais de três milhões de minas antipessoal distribuídas em seis campos minados espalhados por todo o Zimbábue ainda precisam ser detectadas, removidas e destruídas. De acordo com a legislação internacional, o Zimbábue deve completar um levantamento dos seus campos minados até 1º de janeiro de 2015.

 

 

O chefe Sengwe, um tradicional líder do povoado de Gwaivhi, recebe do Ministro de Defesa do Zimbábue, Dr. Sydney Sekeramayi, livros de exercícios para crianças que ensinam como identificar e evitar as minas antipessoal. O CICV e o Centro de Ações Antiminas do Zimbábue têm trabalhado juntos para aumentar as atividades de conscientização sobre os riscos oferecidos por minas nas comunidades afetadas pelas mesmas.

 

 

Philimon Sibanda (30), um habitante do povoado de Gwaivhi, mostra o que sobrou da sua perna direita depois de pisar em uma mina antipessoal enquanto arrebanhava o gado em 2007. Philimon não sabia que a área estava infestada com minas. As vidas das pessoas jovens que vivem na fronteira entre o Zimbábue e Moçambique, ou em regiões próximas à mesma, estão sempre ameaçadas pelo risco de minas terrestres. Muitas desconhecem os perigos dos resíduos explosivos de um conflito terminado muito tempo antes do seu nascimento.

  

O trabalho do CICV para reduzir os danos causados pelas minas antipessoal no Zimbábue

O CICV tem trabalhado com o ZIMAC para melhorar a segurança e a qualidade e acelerar o ritmo das ações humanitárias para a remoção de minas no campo de 53 km de extensão que vai desde Crooks Corner até o Posto Fronteiriço Sango, no sudeste de Zimbábue, na fronteira com Moçambique.

Desde fevereiro de 2012, 69 agentes especializados são treinados em ações para a remoção de minas de acordo com os últimos principíos humanitários internacionais. O CICV também doou 50 conjuntos para a detecção de minas e equipamentos protetores para serem utilizados pelos agentes especializados neste tipo de ação.

Com o objetivo de melhorar as capacidades do ZIMAC para oferecer os serviços médicos necessários para salvar vidas aos agentes especializados em remoção de minas, 16 estudantes de medicina e um médico foram treinados no atendimento de traumas, enquanto o CICV também doou cinco kits de material médico para o tratamento de traumas.

O CICV possibilitou o treinamento em atividades de conscientização sobre os riscos provocados por minas a oito funcionários do ZIMAC e doou cinco mil livros de exercícios para crianças a serem entregues em escolas, que explicam como identificar e evitar as minas antipessoal.