Líbano: munições cluster ameaçam vidas de civis anos após fim do conflito

12-08-2010 Reportagem

O Líbano é um dos 107 Estados que assinou a Convenção de Munições Cluster, que entrou em vigor hoje. Quatro anos depois de um conflito que durou cinco semanas entre Israel e o Hezbollah no Líbano, as munições cluster não detonadas continuam matando e mutilando os civis. Israel usou munições cluster que continham até 4 milhões de sub-bombas individuais, das quais centenas de milhares não explodiram no momento do impacto. Esses artefatos contaminaram uma área de 43 quilômetros quadrados que abrange as aldeias ao sul do território libanês.

 
©LMAC 
   
Sul do Líbano. Membro do Centro Libanês de Ação contra as Minas do exército trabalhando na avaliação de um terreno contaminado com munições cluster. 
       
©CICV 
   
Hilta, Líbano. Ali Chibli sentado em sua casa sob uma foto de seu filho morto durante a explosão de uma bomba cluster e outra de seu segundo filho, que sobreviveu. 
       
©ICRC 
   
Hilta, Líbano. Próxima ä casa de Ali, a área tranquila destinada à recreação, que se tornou uma armadilha mortal para os seus filhos. 
       

O pastor Ali Hussein Chibli e sua famílias estão entre as primeiras vítimas das munições cluster no Líbano. Ali perdeu uma perna, um de seus filhos morreu e o outro sofreu graves ferimentos abdominais, todas consequências de bombas cluster lançadas em sua aldeia, Hilta, que está localizada próximo à fronteira com Israel.

" Essas bombas cluster mudaram tudo. Basicamente, destruíram nossas vidas " , relembra Ali. Seus filhos tinham apenas 12 e 13 anos quando uma bomba explodiu em outubro de 2006, poucos meses depois do fim do conflito. Eles brincavam sob os pinheiros perto de nossa casa, quando pisaram em uma sub-bomba. " O lugar onde brincavam era, na verdade, uma armadilha mortal, apesar de a área, aparentemente, ter sido descontaminada " .

A maldição das bombas cluster caiu sobre a família Chibli uma vez mais há um ano e meio, quando Ali perdeu a outra perna em uma explosão enquanto cuidava de seus carneiros nas proximidades da aldeia. Desde então, Ali teve de vender seu rebanho e uma parte de suas terras para alimentar sua família e pagar os custos da cirurgia e da reabilitação para ele e seu filho. Agora, a esposa de Ali faz pães para gerar um pouco de dinheiro para a família, enquanto Ali faz trabalhos esporádicos quando pode.

Para a família Chibli, perder um filho foi a parte mais traumática da tragédia causada pelas munições cluster. " Não me importaria perder uma perna ou minhas terras, se meu filho ainda estivesse vivo " , enfatiza Ali. " E o que assusta mais é que só Deus sabe quantas vítimas mais essas coisas malditas farão " .

De acordo com os números oficiais do Centro Libanês de Ação contra as Minas (LMAC) do exército, as munições cluster já mataram 46 pessoas e feriram 340 no Líbano desde agosto de 2006. As atividades de descontaminação começaram imediatamente depois do fim do conflito em 14 de agosto de 2006 e envolveu agências da Organização das Nações Unidas (ONU) e ONGs internacionais, além do LMAC. O general Mohammed Fehmi, responsável pelo centro, estima que cerca de 43 quilômetros quadrados foram contaminados pelas munições cluster.

" As bombas cluster são, sem dúvida, o pior tipo de munição no que se refere às atividades de limpeza " , explica Fehmi. " As minas terrestres e outros tipos de material bélico são mais fáceis, desde que se usem mapas. O que torna as munições cluster tão perigosas é que quatro de dez não explodem no momento do impacto. E quanto mais velhas são, mais alta a taxa de falha " .

Até o momento, quase 200 mil munições cluster não detonadas foram destruídas. Ninguém sabe quantas ainda estão espalhadas por aí, esperando para serem detonadas involuntariamente por uma criança ou um camponês. Fehmi é realista com relação a seu trabalho: " É irreal esperar um Líbano totalmente livre e munições cluster. Não há maneira de alcançarmos esse objetivo " .

O chefe do LMAC estima que as atividades descontaminação continuarão por muitos anos. Além das munições cluster, há minas terrestres espalhadas por Israel no sul do Líbano e outras colocadas pelas várias milícias locais em diferentes partes do país durante as décadas do conflito que assolou seu país.