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Sudão: uma verdadeira festa do Eid

06-11-2009 Reportagem

Durante onze anos, o jovem Yusuf Muhammad não viu sua mãe, porque ele havia fugido do conflito em Darfur e cruzou para o Chade, enquanto ela permaneceu no Sudão. Através de sua determinação e da ajuda do CICV, mãe e filho estão juntos de novo.

 
    ©CICV      
   
    O jovem Yusuf Muhammad na delegação do CICV em Cartum, Sudão.      
       
    ©CICV      
   
    Delegação do CICV, Cartum. Yusuf com sua mãe e o primo pequeno.        
       
    ©CICV      
   
    Cartum. Yusuf (segundo à direita) com sua mãe e os funcionários do CICV que ajudaram a reuni-los.      
       

Para Yusuf Muhammad, que havia sido separado da mãe há onze anos, o momento de seu reencontro com ela não poderia ter sido melhor. Era o fim do mês sagrado muçulmano do Ramadã, poucos dias antes da festa do Eid, que marca o final de trinta dias de jejum.

Yusuf, de 17 anos, está esgotado pela reviravolta em sua vida nos últimos dias. Depois de uma avalanche de telefonemas e procedimentos administrativos, finalmente, ele está a bordo de um avião do CICV em Alfasher, no norte de Darfur, rumo a Cartum para reencontrar sua mãe há muito tempo desaparecida.

Onze anos se passaram desde que mãe e filho foram separados. Desde de que se divorciou do pai de Yusuf, em 1998, sua mãe vivia em Al-Jazira, no norte do Sudão, com um de seus filhos. Yusuf, seu pai e um irmão mais novo ficaram em Darfur. Quando o conflito irrompeu em 2003 em Darfur, Yusuf, que tinha 10 anos, atravessou a fronteira do Chade com o pai e o irmão para se juntarem a outros darfuris em um campo de refugiados em Abeche, na fronteira entre o Chade e o Sudão.

  A longa busca  

O jovem estava " obcecado com a idéia de ver sua mãe outra vez " , segundo Anne Chassaing, delegada do CICV em Alfasher, que tem acompanhado a história do adolescente na tentativa de ajudar a acabar com seu sofrimento. O segundo casamento de seu pai pôde ter acelerado a decisão de Yusuf de deixar o campo de refugiados e viajar de volta ao Sudão para procurar sua mãe.

Quando soube dos planos de seu filho, o pai de Yusuf estava preocupado com os grandes riscos que ele corria, mas não pôde detê-lo. Em outubro de 2008, Yusuf i niciou sua viagem de volta ao Sudão, sozinho, às vezes a pé, às vezes de carona com qualquer um que pudesse levá-lo. No final de outubro, chegou a Nyala, no sul de Darfur, e decidiu continuar a sua viagem para o norte.

Na cidade de Shangil Tobaya, encontrou seu caminho na direção de um complexo que pertence à União Africana - Operação Híbrida das Nações Unidas em Darfur. De lá, foi direcionado para Muhammad Isa, um voluntário do CICV, que lhe deu hospedagem por algumas semanas em sua própria casa antes de levá-lo para a subdelegação do CICV em Alfasher, no final de julho de 2009, para ser cadastrado como uma pessoa que buscava se reunir com um familiar.

Em Alfasher, Yusuf deu o último endereço conhecido de sua mãe para que a equipe do CICV pudesse rastreá-la e localizá-la. " Viajei para Al-Manaqil, localidade do estado de Al-Jazirah, mais de 300 quilômetros a sudoeste de Cartum, para localizar a mãe de Yusuf " , disse Abd al-Farraj Muhammad, encarregado de rastreamento do CICV em Cartum. " Ela escreveu imediatamente uma mensagem da Cruz Vermelha para ele e assinou um novo acordo de unificação para obter seu filho de volta " .

" A troca de mensagens da Cruz Vermelha entre mãe e filho continuou " , diz Khalid Hasan, outro funcionário do CICV, que trabalhou no caso.

Enquanto isso, a equipe do CICV trabalhava muito em um plano melhor. Logo eles deram a grande notícia a Yusuf: eles não só puderam localizar a mãe e um de seus primos, mas também tinham organizado para todos os três voarem para Cartum para se reencontrarem.

A partir daí, as coisas se moviam tão rápido que parecia que alguma intervenção divina estava em jogo oferecendo a Yusuf um presente para o Eid: sua mãe, em pessoa!

" O menino já passou por dificuldades " , disse Taisser Hasson, encarregado de rastreamento do CICV, em Alfasher. " Mas também ex perimentou a verdadeira solidariedade sudanesa. Em Darfur, onde morava, ele não tinha dinheiro, no entanto, sempre tinha comida e abrigo. Todos os dias, pessoas que nem o conheciam lhe mostraram sua bondade " .

Anne Chassaing disse que Yusuf pôde falar com sua mãe pela primeira vez por telefone no dia 2 de setembro, quando ele veio para o CICV, em Alfasher, para assinar o acordo de unificação da família. " Depois que ele me ligava sempre para perguntar quando viajaria para encontrar sua mãe " , disse. “Quando o deixei no avião do CICV, ele parecia ansioso, impressionado com a idéia de que por fim estaria com sua mãe”.

  Enfim, mãe e filho se reencontram  

O encontro entre Yusuf, sua mãe e seu primo no dia 17 de setembro, na delegação do CICV em Cartum, era uma mistura de emoções: felicidade, gratidão, tristeza e riso. Tudo isso deu à equipe do CICV um sentimento de realização e satisfação. Pois, nas semanas anteriores, a equipe de rastreamento do CICV tinha feito o possível para garantir que a família comemorasse o Eid junto. Quanto a Yusuf, ele continua atordoado: sua nova realidade ainda não tinha sido absorvida.

A mãe está muito feliz. " Há onze anos não o via " , disse ela, " é muito, muito tempo para uma mãe não ver o filho. Estou muito feliz " .

O rapaz tinha feito bom uso de seu tempo no campo de refugiados. " Fui para a escola e terminei o sétimo grau " , disse, enquanto aguardava sua mãe no escritório do CICV em Cartum. " Espero terminar a escola e estudar inglês em uma das universidades de Cartum ou Juba. " Como seu pai era empregado em uma das organizações de ajuda no campo, Yusuf aproveitou para aprender inglês, que agora fala com fluência.

O CICV ajuda familiares separados pelo conflito a restabelecer o contato, em geral por meio de mensagens da Cruz Vermelha, que contém notícias pessoais e familiares, distribuídas em todo o país através da rede de voluntários do Crescente Vermelho Sudanês. Além disso, o CICV tenta localizar familiares desaparecidos e, sempre que possível, reúne crianças e outros vulneráveis - como idosos ou deficientes - separados de seus entes queridos.