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Romênia, 1989: ação rápida

23-12-2009

Em dezembro de 1989, o CICV reagiu rapidamente aos violentos eventos que levaram à queda do regime de Ceausescu. Entrevista com Francis Amar, ex-chefe do CICV para a região da Europa e da América do Norte.

 

 
   
Francis Amar, ex-chefe do CICV para a região da Europa e da América do Norte 
     

  Em dezembro de 1989, o CICV reagiu rapidamente aos violentos eventos que levaram à queda do regime de Ceausescu. Que operações o senhor realizou nesse contexto de rápidas mudanças, uma que tenha sido completamente nova para o CICV na região?  

Naquela época, a zona do CICV que cobria a Europa e a América do Norte era, de certa forma, incomum no sentido de que não realizava nenhuma operação. A situação da Romênia começou a se deteriorar mais ou menos no dia 16 de dezembro de 1989. Mas o país era muito fechado e o CICV não o conhecia bem. Quando a situação piorou, não tínhamos contatos no terreno que pudessem nos ajudar a ver com mais clareza o que acontecia aí. Já havíamos feito " ofertas de serviços " à missão permanente da Romênia para a ONU em Genebra. Sem resposta. A mídia começava a relatar que as pessoas estavam tomando as ruas, algo muito incomum na Romênia. Foi aí que percebemos que as coisas estavam esquentando. Na manhã do dia 22 de dezembro, fui à missão permanente de novo. Encontrei-me com um ministro de relações exteriores aterrorizado, que está muito preocupado com o fato de não poder entrar em contato com Bucareste e, desta forma, não podia me dar uma resposta. Voltei para a sede do CICV, onde foi decidido ir a Bucareste de qualquer maneira. O CICV não toma essas atitudes com frequência.

     

 
           
 
   
 
         

Tomamos a decisão de ir à Romênia às 11h45 no último dia de trabalho antes do Natal. Portanto, teríamos que mobilizar as pessoas. Fui ao refeitório, onde acabava de começar o almoço anual de Natal e encontrei o chefe da divisão de socorro, Andreas Lendorff. Eu o tirei de seu almoço de Natal, o levei para um canto e lhe disse: " Estamos indo para a Romênia. Hoje. " . Às 18h, duas aeronaves partiram do aeroporto de Genebra. Uma levava seis delegados liderados por mim. Na outra havia 3 toneladas de remédios e suprimentos médicos. Naquela manhã, havíamos estado na missão permanente para ter uma resposta. Às 11h45 tomamos uma decisão. Às 12h começamos a mobilizar as pessoas. Às 18h as aeronaves decolaram e às 21h pousamos em Bucareste.

  A operação do CICV começou na noite do dia 22 de dezembro. Como estava a situação quando o senhor chegou e quais eram suas prioridades?  

Alugamos dois aviões, os carregamos e partimos. Poucas horas depois, estávamos em Bucareste. Eram 21h. O piloto chamou a torre de Bucareste para pedir autorização para aterrissar. A resposta foi: " Não. O aeroporto está fechado. Você não pode aterrissar. Você deve ir embora " . Ele insistiu: " É um voo da Cruz Vermelha… " etc. Nada. Nenhuma autorização. “E agora? " , ele perguntou. " Escute, é fisicamente impossível pousarmos? " . Sua resposta foi: " É um pouco problemático, porque precisamos de luzes de aterrissagem. Mas veremos”. Depois, para a torre: " Vamos pousar. Por favor, acenda as luzes de aterrissagem " . Basicamente, os forçamos a permitir que pousássemos e pousamos.

O aeroporto tinha fechado poucas horas antes, deixam passageiros de toda a Europa abandonados. Também não podíamos sair do aeroporto. O exército havia assumido o controle do lugar e eles estavam no meio de um im passe com a Securitate (a polícia de segurança paramilitar), ainda fiel ao antigo regime, cujos líderes tentavam fugir do país. As tropas da Securitate estavam tentando tomar o aeroporto para que eles pudessem ir embora, enquanto o exército defendia o aeroporto e os impedia de fazê-lo. Ficamos presos no aeroporto por dois dias e meio. Enquanto estávamos aí, nossas principais tarefas eram cuidar de todos aqueles civis abandonados, impedir os soldados de atirar nos prisioneiros que mantinham no porão e contatar nossos colegas da Cruz Vermelha Romena em Bucareste, para organizar nosso traslado para a cidade. Também cuidamos dos feridos, a maioria deles com ferimentos por tiros ou estilhaços.

  Sabemos que houve um exagero no número de vítimas. Os senhores sabiam dessa discrepância entre os números que a mídia informava e a realidade no terreno?  

Não, a princípio, não. Quando o CICV decidiu ir para Bucareste, baseamos a operação na informação disponível na mídia na época. Esperávamos encontrar corpos por todo lado. Havia vítimas em vários hospitais, porque houve confrontos, mas eram centenas e não milhares. Foram necessários alguns dias para percebermos que ao mesmo tempo em que a situação era grave, não era tão dramática como a que temíamos.

  Quais eram as prioridades em termos de socorro humanitário durante a fase de emergência?  

Houve necessidades médicas, mas não exatamente as que esperávamos. Pensávamos que os hospitais estariam com falta de sangue, por exemplo. Na verdade, não aconteceu isso. Os bancos de sangue estavam abastecidos e havia doadores. Havia uma necessidade de suprimentos médicos mais sofisticados, mas as necessidades não eram suficientes para justificar o socorro que chegava à Romênia. A ação do CICV que teve maior impacto nesses poucos dias foi nossa intervenção de maneira ad hoc para evitar as execuções sumárias.

Até mesmo no aeroporto, os delegados do CICV enfrentaram situações nas quais, claramente, as pessoas estavam por ser executadas no local sem julgamento. Se o CICV não tivesse estado no local naquele momento com um delegado que pudesse levantar sua voz, intervir e evitar isso fisicamente, algumas outras vidas teriam sido perdidas. Os delegados assumiram alguns riscos, de certo, mas era a única coisa a fazer. Uma das tarefas mais importantes dos delegados era explicar a todas as pessoas com as quais falamos a importância de não ter a mentalidade de " vingança a qualquer preço " . Eles tinham que tentar acalmar as coisas e lembrar as pessoas de algumas regras básicas do Direito Internacional Humanitário.

  Os acontecimentos na Romênia provocaram uma onda de solidariedade mundial, o que foi, na verdade, desproporcional às necessidades. O que o senhor lembra em particular sobre essa grande mobilização, sobretudo pelo o Movimento?  

As Sociedades Nacionais do mundo todo queriam ajudar as pessoas na Romênia, pois pensavam que metade havia morrido de fome. Não foi o caso. Durante os dois dias depois de nossa chegada, cerca de 30 aviões pousaram em Bucareste, vindos do mundo todo, cheios de todos os tipos de mercadoria. Quando a primeira equipe pôde deixar o aeroporto no dia 24 de dezembro, deixei Jean-François Berger encarregado de coordenar a chegada de socorro que estava começando a convergir em Bucareste através do aeroporto, a única porta de entrada para o transporte aéreo. Ele fez um excelente trabalho nos dias que seguiram, ajudando as pessoas a descarregarem a aeronave, armazenando os suprimentos em um hangar e avaliando o que tínhamos e o que podíamos fazer com isso.

  Qual foi o papel da Cruz Vermelha Romena e como o senhor trabalhou com eles?  

     

Na época de Ceausescu, a Cruz Vermelha Romena estava totalmente sob controle do governo. As novas autoridades políticas rapidamente nomearam um novo presidente para a Sociedade Nacional e ela fez vários contatos para nós, mas seu papel não era fácil. Não só todas as coisas da Cruz Vermelha eram novas para ela, mas também acumulava duas funções: Ministra Adjunta da Saúde e Presidente da Cruz Vermelha Romena. A Cruz Vermelha Romena nos ajudou a montar um depósito central, no qual concentrávamos todo o socorro que as Sociedades Nacionais enviavam à Romênia. Daí distribuíamos essas mercadorias, sobretudo com a ajuda dos voluntários da Cruz Vermelha Romena.



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