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Sudão: atender às necessidades dos civis em circunstâncias complexas

12-05-2009 Entrevista

No Sudão, os últimos acontecimentos, incluindo a expulsão de organizações não-governamentais, tiveram consequências sobre a situação humanitária. Como no passado, o CICV está respondendo às necessidades emergenciais, em parceria com outros atores humanitários. Jordi Raich Curco, chefe da delegação no Sudão, explica.

     
© ICRC/P. Dutilleul 
   
Região de Jebel Marra, norte de Darfur. O CICV distribui alimentos, sementes e ferramentas agrícolas para os civis. 
               

© ICRC/P. Dutilleul 
   
Região de Jebel Marra, norte de Darfur. Aldeãos recebem alimentos, sementes e ferramentas agrícolas do CICV. 
           
     
© ICRC  
   
Jordi Raich Curco, chefe da delegação do CICV no Sudão 
         

  O governo do Sudão expulsou 13 organizações não-governamentais (ONGs) depois de o presidente sudanês Omar Al-Bashir ter sido acusado pelo Tribunal Penal Internacional, no último mês de março. Como isso afeta a situação humanitária no Sudão, sobretudo em Darfur?  

     

A saída de 13 ONGs internacionais de Darfur e de outras regiões do Sudão afetou as agências humanitárias e seu trabalho no país. Isso é fato, sobretudo em Darfur e em outras áreas remotas, onde as pessoas têm acesso a poucos serviços desde que algum as ONGs trabalhavam aí.

As agências da ONU e seu parceiros remanescentes e o governos sudanês agora buscam maneiras de manter os programas em funcionamento e começar outros. Os atores humanitários que ainda estão no Sudão mantêm uma série de reuniões com uma missão conjunta para Darfur – envolvendo o governo e representantes da ONU – para avaliar a situação e pensar em maneiras de atender as necessidades.

Considera-se que a situação esteja sob controle, com as principais necessidades – alimentos, assistência médica e água limpa – cobertas até o final de maio.

  Que efeitos a saída das ONGs tem sobre as operações do CICV em Darfur?  

     

Em Darfur, o CICV continua se concentrando em suas atividades em áreas rurais e remotas, onde as necessidades ainda são urgentes. O objetivo dessa abordagem está dividido em duas partes: responder às emergências ao proporcionar assistência (alimentos, utensílios domésticos, saúde) para as pessoas necessitadas; e para ajudar a proteger as fontes de meios de subsistência das pessoas em perigo para não se tornem dependentes do socorro. Portanto, a organização se concentra em melhorar a produção agrícola e os serviços veterinários, reabilitando pontos de água fundamentais e apoiando as clínicas de saúde e serviços para amputados.

O CICV coordena sua ação com outros membros do Movimento da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho no Sudão, especialmente, o Crescente Vermelho sudanês, seu principal parceiro no país. Com a saída das ONGs, a demanda é grande para o Crescente Vermelho sudanês, levando ao limite sua capacidade de preencher o vazio que essa saída deixou.

  Diante dos últimos acontecimentos, o senhor teve que modificar sua estratégia?  

     

Não diria que a estratégia foi modificada. Nossas principais operações continuam, como antes, em Darfur e no restante do país. Em todo momento, temos 16 equipes operando em 11 escritórios permanentes em todo o país. O Sudão é nossa maior operação no mundo e já passamos do nosso limite em Darfur devido ao tamanho de nossas atividades.

Embora responder às emergências continua sendo a prioridade da organização, o CICV intervirá em situações nas quais vidas sejam ameaçadas e nas quais possa fazer a diferença. Um exemplo é a atual campanha do CICV contra o surto de meningite na região de Jabal Marra a oeste de Darfur. Esta atividade não planejada é uma resposta a uma necessidade que surgiu de repente na região onde o CICV é uma das poucas organizações presentes e que tem condições de tratar esse problema. A campanha é realizada em parceria com os Médicos Sem Fronteira da Suíça, o Ministério da Saúde, o Fundo Infantil das Nações Unidas e a Organização Mundial de Saúde.

A campanha visa a vacinar 65% da população com idades entre 2 e 30 anos da região afetada pelo surto. Até o momento, quase 36 mil pessoas (cerca de 80% do nosso objetivo) já foram imunizadas.

  Quais são os principais desafios que o CICV tem enfrentado durante a realização de suas operações?  

     

A segurança continua sendo um desafio para as atividades que gostaríamos de realizar em partes do país. Estamos preocupados com as péssimas condições de segurança em certas áreas de Darfur e pedimos que as diferentes comunidades e partes respeitem os trabalhadores humanitários. Além disso, a estação de chuvas está por chegar. Isso representa limitações logísticas e difíceis condições nas estrad as que restringirão a locomoção do CICV, sobretudo no centro e sul do Sudão.

Um desafio que, em geral, tentamos atender, sobretudo com a mídia, é o de gerar interesse no país como um todo, em vez de apenas em Darfur. Ao mesmo tempo em que Darfur tem sido manchete nos últimos anos, as necessidades e as situações emergenciais também surgem em outras partes do país.

Nos últimos meses, por exemplo, o grupo armado ugandês, o Exército da Resistência do Senhor, atacou a região na fronteira entre a República Democrática do Congo e Uganda, fazendo com que as pessoas abandonassem suas aldeias. Enquanto os civis congoleses buscam refúgio no Sudão, os aldeãos sudaneses fugiram para lugares mais seguros dentro do país. O CICV e o Crescente Vermelho estão agindo para oferecer socorro de emergência e tentar localizar familiares separados durante a fuga.

  Dado ao Acordo Abrangente de Paz, assinado há quarto anos, o CICV está presente no sul do Sudão?  

     

O CICV mantém uma missão no sul do Sudão, onde temos trabalhado desde 1986. Apesar da relativa estabilidade desde a assinatura do acordo, as tensões e os confrontos ocasionais aumentam as necessidades das pessoas.

No sul do Sudão, que passa por um período de transição da guerra para a paz e o desenvolvimento, o CICV visa a atender às necessidades humanitárias e promover o Direito Humanitário Internacional (DHI). Os delegados do CICV registram violações ao DHI e mantém diálogos confidenciais com as partes pertinentes na região fronteiriça do norte e do sul e no sul do Sudão sobre como evitar futuras violações ao DHI.

Parte da assistência da organização no sul do Sudão está em resolver os efeitos remanescentes de uma guerra duradoura que terminou com a assinatura do acordo .

Estima-se que 35 portadores de necessidades especiais no sul do Sudão, incluindo muitas vítimas da guerra, agora têm acesso a cuidados e assistência em um novo centro de referência em reabilitação física com tecnologia de ponta em Juba. Construído e equipado pelo CICV, o centro que US$ 1.8 milhões oferecer próteses e ortóteses para amputados e portadores de necessidades especiais. O CICV ainda colabora com o centro e apóia o treinamento de sua equipe para manter serviços de alto padrão.

O centro pode tratar 60 pacientes internos vindos de todo o sul do Sudão a qualquer momento e atenderá cem pacientes por mês quando estiver operando a toda capacidade.