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Zimbábue: mesmo sem guerra, uma importante ação do CICV

11-01-2008 Entrevista

Embora em paz, o Zimbábue enfrenta muitas dificuldades. Zoran Jovanovic, chefe da delegação do CICV em Harare, descreve os desafios e as ações do CICV para superar os desafios.

     

 
   
Zoran Jovanovic 
         

  Do ponto de vista humanitário, qual é a situação atual do Zimbábue?  

     

Está bem complicada, devido a muitas razões.   A primeira é que o Zimbábue foi por muitos anos o principal produtor de grãos da parte sul da África e uma das conseqüências da reforma agrária realizada desde 2000 foi uma forte queda na produtividade. Entre as outras razões para tal situação complicada está o impacto que a AIDS e doenças associadas a ela tem sobre a população, especialmente nas zonas rurais. Claramente, pode ser muito difícil, para alguém que é HIV positivo e que não esteja sob tratamento, dar conta do forte e exaustivo trabalho físico nos campos.

O fato de que muitas pessoas saíram de suas casas, principalmente por questões econômicas nos dá outra razão. Muitos deles foram para a África do Sul, Inglaterra, Zâmbia, Botsuana ou Namíbia. Estima-se que aproximadamente 3,5 a 4 milhões de cidadãos do Zimbábue saíram do país, sendo que a população é de 12 ou 13 milhões. As conseqüências da Operação Murambatsvina ,   em 2005, na qual o governo tomou fortes ações contra as estruturas que lhes pareciam ilegais, também devem ser mencionadas. Muitas centenas de pessoas foram deslocadas sem qualquer possibilidade de serem relocadas. 

Uma outra razão é o isolamento sofrido atualmente pelo país e uma das conseqüências é a falta de fundos para projetos de desenvolvimento. O dinheiro está disponível para os programas humanitários, que embora sejam necessários não eliminam a necessidade de ajuda no desenvolvimento. Hoje em dia, tal ajuda não está sendo fornecida.

Deve ser recordado que a saúde e a educação no Zimbábue eram modelos para toda a África. Este não é mais o caso, apesar do valioso trabalho que continua sendo feito pela equipe em condições muito difíceis. Estamos testemunhando o que um diplomata do Zimbábue descreveu como “dissolução”. Uma desintegração gradual está a caminho, na qual o Estado continua forte, as estruturas estatais continuam intactas e a infra-estrutura continua excelente comparada com outros países da região, mas os problemas do país são enormes.

  Como o trabalho do CICV é diferente daqueles de outras organizações humanitárias?  

     

Nós queremos ser diferentes. Antes de tu do, é preciso mencionar que o contexto no Zimbábue é diferente daquele que o CICV trabalha tradicionalmente. O país não está no meio de um conflito armado. Está em paz, mas lutando com problemas como o deslocamento populacional, algumas vezes afligindo os países em guerra. Nossos programas podem ser modestos, mas eles têm impacto real nas pessoas que estamos tentando ajudar.

Iniciamos o único programa básico de saúde jamais realizado no Zimbábue. Selecionamos 16 centros médicos em três distritos de três províncias diferentes. A ajuda médica do CICV está combinada com a ajuda em fornecimento de água e saneamento de forma a assegurar que os centros tenham acesso à água potável. Ao mesmo tempo, o CICV fornece peças sobressalentes gratuitamente para as comunidades ao redor dos centros médicos para permitir que eles possam retomar o funcionamento das bombas manuais instaladas nas vilas. Esta é uma parte das nossas atividades.

Atualmente, estamos no processo de expansão destas atividades em Harare, principalmente na área de fornecimento de água e saneamento, a fim de ajudar a Jurisdição Nacional de Águas do Zimbábue - JNAZ (sigla em inglês, ZINWA) na distribuição de grandes quantidades de água de boa qualidade. A JNAZ continua tendo uma equipe profissional, mas a inflação de três dígitos reduziu gradualmente os recursos.

No próximo ano, nós decidiremos se queremos continuar forçando neste caminho e possivelmente tentar fazer alguma coisa para as outras cidades, como Bulawayo, a segunda maior no país, que também tem sérios problemas de abastecimento e qualidade de água.

  Você pode nos contar mais sobre o trabalho do CICV na área de saúde e sobre a cooperação com o Ministério da Saúde?  

     

A meta é ajudar nas instalações já existentes. O CICV n ão está lançando um programa médico onde não há instalações médicas. Pelo contrário, está contando com a ajuda das instalações existentes e de pessoal qualificado. Eu queria dizer que o pessoal que trabalha em campo merece mais respeito do que estão recebendo. Para valorizar o compromisso deles, você tem que levar em conta as condições nas quais eles estão trabalhando e seus salários em termos reais. Nós estamos tentando dar suporte ao Ministério da Saúde e do Bem-estar da Criança, que é responsável pelo manejo do sistema de saúde no Zimbábue.

O CICV gostaria de fazer mais, mas precisamos ser realistas e levar em conta o fato de que importantes eleições estão a caminho no Zimbábue. É muito difícil concretizar qualquer coisa antes de tal evento.

  Porque o CICV está promovendo ativamente o Direito Internacional Humanitário dentro do corpo militar do Zimbábue e especialmente em campos de jovens?  

     

É importante ressaltar que as forças armadas do Zimbábue estão entre as mais avançadas na parte sul da África em termos de estudos e assimilação do Direito Internacional Humanitário, ambos no nível de oficiais veteranos e jovens com postos de capitão ou major. As Forças de Defesa do Zimbábue tem a força de vontade política e foco institucional para assegurar que seu pessoal esteja familiarizado com o direito internacional e que saiba quando aplicá-lo. O CICV é convidado regularmente a participar de cursos de treinamento, seminários e workshops organizados pelas forças armadas. Nosso objetivo consiste, principalmente, em auxiliar estes esforços das forças armadas do Zimbábue para assimilar o Direito Internacional Humanitário. Um segundo objetivo é aproveitar a oportunidade para encontrar militares que ocupam posições importantes em um país que conquistou sua independência somente há 27 anos.

As visitas aos campos de jovens não devem ser mal-interpretadas. O propósito de ida a estes campos é o de contatar pessoas jovens que certamente ocuparão papéis importantes na sociedade do Zimbábue em alguns anos. Para nós, este é um excelente caminho para mostrar-lhes quem somos e para apresentar o Movimento, o CICV e os padrões mínimos que devem ser sustentados em situações de crise.

Embora o Zimbábue não esteja numa situação de conflito armado – isto não pode ser repetido com freqüência – ainda assim é muito importante conversar com os jovens que, dependendo das circunstâncias, poderão ser chamados pelas autoridades para agir em contextos como as eleições. Queríamos evitar a controvérsia que envolve os campos de jovens e estabelecer um dialogo de longo prazo. É importante perceber que o CICV é a única organização que teve acesso a estes campos.