Rural Damasco, Madaya. Equipe médica do CICV avalia e examina casos de desnutrição infantil. Foto: Somar REZK/CICV

Dia Mundial da Assistência Humanitária 2022: os rostos da coragem

Os profissionais humanitários muitas vezes trabalham nos ambientes mais desafiadores do mundo para chegar às pessoas que precisam de ajuda.
Artigo 18 agosto 2022

No Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), fazemos isso com imparcialidade e neutralidade. Neutralidade significa não tomar partido em hostilidades ou se envolver a qualquer momento em controvérsias de natureza política, racial, religiosa ou ideológica. Por outro lado, imparcialidade significa não fazer discriminação quanto a nacionalidade, raça, crenças religiosas, classe ou opiniões políticas. Esses princípios nem sempre são fáceis de aplicar, mas os profissionais humanitários do CICV se esforçam para fazê-lo em todas as ações que realizam para ajudar as pessoas que mais necessitam.

O Dia Mundial da Assistência Humanitária — celebrado em 19 de agosto — homenageia quem se coloca em perigo para proteger e salvar a vida de pessoas em extrema necessidade em decorrência de desastres naturais, conflitos ativos e outras crises humanitárias. Conversamos com colegas do CICV sobre o que significa ser um profissional humanitário.

Manuel Sáenz Terrazas

Ser um profissional humanitário significa ter a oportunidade de fazer algo quando ninguém mais está fazendo.

Manuel Sáenz Terrazas é cirurgião sênior no Hospital Estadual Especializado de Maiduguri, na Nigéria, onde trata pacientes que sofreram ferimentos graves por armas de fogo e explosivos. Ele trabalha para o CICV há sete anos. A maioria dos pacientes chega ao hospital horas, dias, semanas e às vezes anos depois de terem sido feridos, o que mostra a falta de opções nas zonas de conflito, além da ajuda oferecida pelo CICV.

"Trabalhar para o CICV me dá a oportunidade de chegar a pessoas que de outra forma seriam inalcançáveis. Às vezes as pessoas vêm até nós não só porque somos o último recurso, mas porque somos o único", conta.

Santos Beni

"Como motorista, é importante que eu permaneça neutro no meu trabalho, sem participar de controvérsias ou hostilidades, para poder levar ajuda com segurança a quem mais precisa.

Santos Beni trabalha para o CICV em Moçambique como motorista. Ele enfrenta muitos desafios ao levar ajuda para pessoas que vivem em áreas de difícil acesso de carro. Chegar lá leva cerca de 20 dias. Ele transporta profissionais de saúde, voluntários da Cruz Vermelha de Moçambique (CVM) e vacinas contra a Covid-19.

"Trabalhar para o CICV me permite chegar a pessoas que de outra forma seriam impossíveis de alcançar. E isso ocorre porque trabalhamos sem tomar partido e o nosso único critério para ajudar é que as pessoas estejam necessitadas."

Jacob Chonge

Como operador de rádio, sei que, em alguns casos, salvar vidas é uma questão de minutos. Saber que sou um recurso vital para as pessoas que atendemos me convence de que este não é um trabalho como outro qualquer. A causa que servimos é muito maior do que isso.

Jacob Chonge é supervisor de operadores de rádio para a região do Chifre da África. Ele está no CICV há 21 anos e apoia as operações globais como instrutor.

Os operadores de rádio são as vozes por trás do movimento do pessoal no terreno. Dão conselhos sobre que rotas são seguras para viajar e gerenciam voos da Cruz Vermelha. Devido à distância entre os lugares onde o CICV trabalha, a comunicação por rádio se torna o único meio confiável de comunicação.

"Saber que, como profissional humanitário, atendemos a outras pessoas que talvez nunca conheçamos ou vejamos me inspira e me satisfaz. Tocamos as vidas delas com o nosso trabalho."

Anastasiia Mykhailova

Aqui e agora, posso ajudar algumas crianças a terem acesso à educação novamente. Milhões delas estão fora da escola devido ao conflito.

Anastasiia Mykhailova é a oficial de terreno para Acesso à Educação e está sediada em Kiev, Ucrânia.

Oriunda de Luhansk, morou em Severodonestk até fevereiro de 2022, quando começou a trabalhar para o CICV. Ela ajuda crianças e professores afetados pelo conflito na Ucrânia e apoia a restauração de estabelecimentos educativos danificados.

"Depois de muitos anos ensinando em escolas e faculdades, entendo a importância da educação, sobretudo durante as atuais hostilidades na Ucrânia. O acesso à educação é um direito que toda criança deve ter e participar do apoio a isso, especialmente para quem precisa, é o que torna o meu trabalho aqui tão especial."

Karen Lieve Ria Hostens

O que precisamos lembrar no nosso trabalho diário é que estamos aqui para atender as pessoas afetadas por vulnerabilidades; elas não são vulneráveis em si.

Karen Lieve Ria Hostens é diretora-adjunta regional na África. O seu trabalho como profissional humanitária foi moldado pelas experiências da sua própria família durante as duas Guerras Mundiais na Bélgica. Essa formação e a sua infância mudando-se de um país para outro inspiraram a sua visão de mundo e fortaleceram a sua determinação de entender a humanidade de maneira neutra, imparcial e independente. Isso a levou para o mundo acadêmico e, finalmente, para o setor humanitário, sempre trabalhando dentro do Movimento da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho.

Como gestora de pessoas, o princípio mais importante com que convive é o dever de cuidar.

"O dever de cuidado não se resume a publicar uma política de saúde mental na intranet ou fazer uma avaliação, nem mesmo dar aumento salarial ou folgas extras. Trata-se de ver os colegas, reservar um tempo para reconhecê-los e verificar se estão bem. É uma responsabilidade que não deve ser tomada com leveza."

Verena Johanna Kreiliger Young

Ser uma profissional humanitária é fazer a diferença na vida das pessoas de qualquer maneira que eu puder.

Verena Johanna Kreiliger Young é líder de equipe de fisioterapia em Juba, Sudão do Sul. Ela trabalha para o CICV desde 2019 e passou por hospitais e centros de reabilitação no Iêmen e no Afeganistão antes de começar no seu atual posto de trabalho.

"A experiência de trabalhar em hospitais e centros de reabilitação me deu uma visão de primeira linha da jornada dos pacientes desde o momento em que foram feridos até o processo de recuperação. Isso me fez ver a diferença que fazemos na vida das pessoas", afirma.

Verena é grata por contar com membros da equipe que a ajudam com as traduções. Para ela, o mais gratificante do seu trabalho é o esforço conjunto dos membros da equipe para fazer uma diferença substancial na vida das pessoas.

"Não é uma única pessoa que faz a diferença, somos todos nós na equipe", diz.

Paul Okony Apok

Ser um profissional humanitário significa estar pronto a qualquer momento quando for chamado para apoiar uma comunidade ou grupo afetado. A nossa singularidade no CICV é que não tomamos partido e não discriminamos.

Paul Okony Apok trabalha no departamento de segurança econômica como oficial de terreno em Juba, Sudão do Sul. Ele é um profissional humanitário há duas décadas. Seu trabalho envolve avaliar as necessidades das comunidades afetadas que o CICV atende. Dependendo das constatações, faz recomendações sobre distribuição de alimentos, assistência em dinheiro ou fornecimento de kits de pesca.

Um dos maiores desafios que enfrenta no seu trabalho é a acessibilidade às comunidades que atendemos, principalmente durante a estação chuvosa, quando as estradas ficam intransitáveis e as equipes são obrigadas a voar. A situação de segurança também pode se tornar desafiadora porque "você não sabe quem controla onde".

Ami Basendo

Trazer alegria às famílias separadas pela violência e pelo conflito armado é a minha motivação mais profunda. Sinto-me orgulhoso e útil cada vez que uma criança se reencontra com os pais ou familiares que os aceitam e integram após a separação.

Ami Basendo trabalha com o CICV há 11 anos na República Democrática do Congo (RDC). Atualmente, ele está trabalhando em Kinshasa, ajudando crianças separadas das suas famílias, desacompanhadas ou libertadas de forças ou grupos armados. Acompanha todo o processo de restabelecimento dos laços familiares até que as crianças se reencontrem com os seus entes queridos.

Um dos incidentes que moldaram a sua carreira foi uma reunificação familiar com um adolescente da República Centro-Africana que havia fugido para a RDC por seis anos após violentos confrontos na sua comunidade.

"No dia da reunificação familiar, quando vi a imensa alegria da tia dele e de outros familiares ao encontrá-lo quando pensavam que ele estava morto, entendi a importância do meu trabalho humanitário."

Tabot Louis Awah

O trabalho humanitário me ensinou a servir a humanidade com empatia..

Tabot Louis Awah é engenheiro hídrico e de habitat em Cameroun. Trabalhar com o CICV o levou a servir a humanidade "melhor e com muita empatia".

"O meu papel é aliviar o sofrimento por meio de assistência ativa de engenharia. Reflete os meus verdadeiros valores na vida. Isso me faz sentir que os conhecimentos e as habilidades que adquiri na universidade são usados da maneira certa, o que é gratificante para mim."

O principal desafio que enfrentou foi o acesso e a aceitação para entrar em algumas áreas rurais em Cameroun, como Munyenge e Bafia. Estas são áreas afetadas pela violência armada onde as pessoas precisam urgentemente de água potável e cuidados de saúde.

Inessa Shulga

Ajudo porque posso. Acredito que, se houver uma oportunidade para isso, você precisa fazê-lo e, se não houver, você precisa procurar.

Inessa Shulga é voluntária da Cruz Vermelha de Belarus em Gomel, Belarus. Ela trabalha na equipe de resposta a emergências e também é instrutora de primeiros socorros.

"Há muitos incidentes e situações no mundo que fazem com que algumas pessoas não consigam se ajudar. É ótimo que existam organizações como a Cruz Vermelha que podem ajudá-las."

O único desafio no seu trabalho voluntário é a falta de tempo livre, pois é difícil conciliar trabalho e voluntariado.

"No meu trabalho, me inspiro muito nos membros da minha equipe, que também ajudam as pessoas necessitadas gratuitamente, me apoiam e me ajudam a não desistir em situações críticas", diz.